Uma severa imprecação contra as redes sociais, acusadas de estarem “a destruir a forma como a sociedade funciona”, corroendo os mecanismos basilares do relacionamento humano, talvez não tenha tido a atenção que merecia. O relevante não é sobretudo a afirmação, de teor idêntico a múltiplas outras, mas a circunstância de ter saído da boca de um antigo vice-presidente do Facebook, Chamath Palihapitiya. O facto de serem aqueles que melhor conhecem as redes sociais a alertarem para os seus malefícios – ou aos malefícios das suas contínuas derivas – é algo que deveria merecer cuidada ponderação.
A investida de Chamath Palihapitiya ocorreu no dia 10 de Novembro, durante uma palestra privada na escola de negócios da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos da América, e foi agora tornada pública pelo site de tecnologia The Verge com assinalável repercussão internacional. O diário britânico The Guardian e o espanhol El País foram alguns dos jornais que, esta semana, deram conta dos avisos de Chamath Palihapitiya: “Vocês não reparam, mas estão a ser programados. Não foi intencional, mas agora vão ter de decidir quanto da vossa independência intelectual vão ter de abdicar”. Manifestando uma “culpa tremenda” pelo papel que desempenhou no Facebook, o antigo vice-presidente da rede social deplorou que as interacções humanas se estejam a resumir à exibição de polegares e de corações, que a conversa civilizada e a cooperação estejam a ser limitadas e que a desinformação e a desconfiança estejam a ser incentivadas.
O palestrante fez referência ao que aconteceu em Maio, no estado indiano de Jharkhand, onde sete pessoas inocentes foram linchadas por se ter feito crer, através de mensagens difundidas através do WhatsApp (uma aplicação propriedade do Facebook), que seriam sequestradores de crianças em actuação na zona, sendo certo que não houve qualquer criança sequestrada na região. A ocorrência serviu para exemplificar a facilidade com que se podem manipular grandes grupos de pessoas e mostrar as trágicas consequências que desse procedimento podem advir. O caso não foi, de resto, único. Muito falada foi também a história de uma brasileira de Guarujá, no litoral de São Paulo, que morreu após ter sido espancada por causa de um boato, propagado através de uma página do Facebook, que referiu que ela sequestrava crianças para usar em rituais de magia negra. É, aliás, por serem de tal modo vulgares que estas falsas denúncias, e as suas consequências graves ou potencialmente graves, foram já o tema de um episódio da série policial francesa Candice Renoir, emitida pela RTP2.
Não espantará que Chamath Palihapitiya se tenha declarado como uma espécie de objector de consciência do uso das redes sociais. Observando que não pode controlar o Facebook, explicou que pode, todavia, controlar as suas resoluções e as dos filhos, tendo decidido “não usar essa merda”. O antigo vice-presidente do Facebook, que depois fundaria a Social Capital, um fundo que financia investimentos em sectores como a saúde e a educação, esclareceu que não abandonou completamente as redes sociais, mas que tenta usá-las o mínimo possível. Do seu exemplo, retirou uma recomendação: fazer uma pausa na frequência das redes sociais. “Encorajo-vos, todos, a interiorizar a gravidade do problema”, disse ele, explicando que “se alimentarem a besta, ela irá destruir-vos”.
A imprensa internacional e, entre nós, na quinta-feira, o Jornal de Notícias recordaram que as críticas coincidem com as que recentemente subscreveu outro antigo responsável do Facebook, o primeiro presidente da empresa, Sean Parker, que acusou a rede social de, ao recorrer ao “circuito perpétuo de validação social”, estar a “explorar uma vulnerabilidade na psicologia humana”. Disse ele que o Facebook foi planeado para consumir o máximo de tempo e atenção consciente. Não se pode dizer que não esteja a ter êxito. E que esse sucesso não seja socialmente pernicioso.
Autor: Eduardo Jorge Madureira Lopes
Fazer uma pausa na frequência das redes sociais
DM
17 dezembro 2017