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Estrelinha para Belém

António Costa não alcança a maioria absoluta só pelos seus meios e do seu partido, nem por uma campanha exemplar; consegue tal proeza à custa da CDU e do BE que, devido às suas decisões erradas (chumbo do Orçamento de Estado para 2022, fim da geringonça e consequentes eleições antecipadas que os portugueses não desejavam) e também com uma ajudinha da queda da abstenção ao ato eleitoral.

Contra todas as sondagens pré-eleitorais, esta maioria absoluta do PS acontece devido à concentração de votos da esquerda e longe dos vislumbres de António Costa que, a partir de dado momento, se contentava já com a vitória mesmo que reduzida; e, assim esta maioria absoluta chega-lhe como dádiva dos deuses e nunca por obra e graça de trunfos jogados na campanha que, afinal, não passou de vulgar e, até, um tanto anacrónica.

Depois, a campanha do Partido Socialista nunca se fez ao centro, mas fundamentalmente desenterrando os fantasmas da direita e do fascismo que aí vinha, apelando ao voto da esquerda; e muito menos pensando que o centro e o centro-esquerda venceriam nas urnas numa lógica de política centrista da maioria dos eleitores. E, se olharmos para os partidos socialistas de alguns países europeus, mais surpreendente é esta maioria absoluta; senão vejamos o que se passa, por exemplo, na Alemanha, em França ou na Itália, onde os partidos socialistas não chegam aos 30% de representação parlamentar esta ligeira amostra choca com a maioria absoluta socialista que os portugueses votaram.

Pois bem, com tal maioria absoluta António Costa tem quatro anos para brilhar e mostrando o que sabe e ao que veio, caso contrário o povo não lhe perdoará, não se esquecendo, obviamente, que ter ruma maioria absoluta no parlamento não pode significar governar exercendo um poder absoluto e, muito menos, governar sozinho; e igualmente virar costas aos representantes eleitos dos outros partidos ou convencer-se que os tempos serão de ventos brandos e mar bonançoso, pois a maré de contestação já se adivinha e já anunciada foi pelo PCP e garantida pelo Chega e pelo Iniciativa Liberal.

É que estes dois partidos de direita sobem à custa de muito eleitorado do CDS e do PSD e somam em conjunto 20 deputados que podem agitar deveras as águas da governação; e, aqui, António Costa fica mal na fotografia, quando apelou ao voto contra a direita que aí vinha ameaçadora, mas não a conseguindo travar e conquistando antes a maioria absoluta com a queda da CDU e do BE. Anteriores parceiros na geringonça.

Agora, com o poder que vai ter e o dinheiro da bazuca que aí vem, António Costa vai governar a seu contento os quatro anos que lhe faltam para perfazer os dez de governação na senda de Cavaco Silva e, provavelmente, sem a oposição e contrapoder que o presidente Mário Soares lhe desencadeou nos últimos quatro anos, pois o presidente Marcelo não me parece estar para aí virado; e, assim sendo, vejamos se com tais benesses o seu governo será capaz de combater a pobreza e as desigualdades, de fazer o país crescer economicamente, de lançar as bases da regionalização, de reformar a Administração Pública, de baixar impostos e a dívida, de valorizar a Educação, a Saúde, a Justiça e a Segurança Social, retirar o país da zona vermelha da miséria e da incapacidade reformista e empreendedora e dialogar com o sector privado e social com vista à mobilização geral do país em prol de mais riqueza, saúde, justiça e assistência para todos; e, sobretudo, repor e exercitar os valores democráticos, combatendo eficazmente a corrupção, o amiguismo, o compadrio, o arranjismo, a demogogia, o populismo e os jobs for the boys.

Muito sinceramente penso que estes quatro anos de maioria absoluta vão ser úteis a António Costa para preparar, a seu bel-prazer, a saída da vida política ativa e partidária; e, assim, esta maioria absoluta de que vai desfrutar e lhe caiu de mão beijada vai-lhe servir de estrelinha para Belém até porque o presidente Marcelo não lhe fará o que o presidente Sampaio fez ao primeiro-ministro Santana Lopes, isto é demitindo-o mesmo a governar com maioria no parlamento e convocando eleições que deram uma maioria absoluta a Sócrates.

Depois, quando Marcelo Rebelo de Sousa acabar o seu último mandato de presidente também António Costa estará a acabar o seu primeiro-ministro; ora, será o momento aprazado para que os socialistas quebrem o jejum de 20 anos sem a presidência da República, lançando António Costa para a conquista de Belém.

Então, até de hoje a oito.


Autor: Dinis Salgado
DM

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16 fevereiro 2022