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Ementa de fim de férias

Ora cá estou, amigo Leitor, com o verão a finar-se e a balbúrdia nacional (de estradas sobrecarregadas, praias a estrugir, stress em alta) em acelerada decadência e evidente decomposição; e se para muitos dos meus leitores o reencontro é bom, é preciso, para muitos outros bem dispensável era, inútil até; mas, sei bem que a sina de quem escreve é mesmo não poder agradar a gregos e troianos ao mesmo tempo.

Ademais, dou-me bem assim, porque de muito novo aprendi, entendi que é preferível mil vezes ser livre do que puxar a carroça da ideologia, do preconceito, do dirigismo; depois, é nos contratempos, nas adversidades que o Homem se define, se realiza, se afirma naquela dimensão humana, social e espiritual que lhe é inerente, alfim, na sua singularidade natural.

Pois é, voltando com os bois ao rego que é como quem diz deixando de lado divagações e filosofices e, assim, acertando o rumo à crónica, trago de férias uma opinião bastante negativa do nosso povo; sobretudo quando mais exposto está aos olhares alheios, seja nos restaurantes e nas praias, seja nas filas das repartições e dos supermercados e, mais grave ainda, nas estradas rolando.

Vejam só, para ilustrar o que afirmo, uma cena que presenciei numa praia cá da zona a abarrotar de gente: enquanto um banhista estrangeiro depositava o pauzinho do gelado dez metros adiante no caixote do lixo, uma família portuguesa igualmente banhista enterrava na areia, a seu lado, cascas de fruta, copos de iogurte e guardanapos de papel; e isto revelando claramente que não basta dar ao povo mais dinheiro, melhores condições de vida e mais liberdade se a sua educação cívica, o seu nível cultural continua abaixo dos mínimos desejados.

Depois, há realmente um aspeto socioeconómico que parece cada vez mais aproximar-nos dessa Europa mítica e das patacas e é a forma desenfreada, louca de se mostrar que se é rico, num chapa ganha, chapa gasta constante, numa amostra ridícula de desrespeito pelo dinheiro; e pior ainda, pelo suor que custou a ganhá-lo e a falta que pode fazer para a educação dos filhos.

E, enquanto a dívida pública aumenta, os serviços públicos não respondem às necessidades primárias das populações e o descontentamento popular vai-se acentuando, os políticos, a caminho das eleições legislativas de outubro, afadigam-se em vender ao eleitor o melhor programa eleitoral, as promessas de um futuro cor-de-rosa, uma vida, enfim, fácil, faceira, forte e farta; e, entre eles, os ditos, os mexericos, as quezílias e as escaramuças vão somando pontos e dando, assim, um mau exemplo de convivência, tolerância e civismo.

E mais: a vida política nacional tão longe como se move da realidade ou mesmo em oposição frequente a ela e os governantes com um argueiro num olho e uma tranca no outro ou seja, naquela meia verdade e nesta inteira mentira, apenas auguram para o povo um futuro de maiores desigualdades, acentuadas divergências económicas e crescente miséria; e, entretanto, lá vamos cantando e rindo, como no antigamente, enquanto o Titanic se afunda.

Assim mesmo; e com bandeiras azuis por essas praias fora a fazerem reclamo ao civismo que, afinal, tanto nos falta e, até, à pouca qualidade de vida que vamos perdendo dia a dia, o país rejubila; e talvez isto não passe de uma inteligente e futurista forma de levar o doente a envenenar-se com as próprias mãos, alegremente e aos guinchos.

Agora, caro Leitor, quer chova, quer faça sol, quer nos saia ou não o Euromilhões, o certo é que estamos cada vez mais velhos; e esta é a triste e medonha realidade que nenhum clister político, venha ele de Belém ou de S. Bento, das Necessidades ou da 24 de Julho poderá aliviar, mesmo que silenciosamente, o doente.

E, então, é vermos a cal dos dias consequentes e vários a branquear nossos cabelos e a charrua do tempo a abrir-nos na pele os sulcos da inexorabilidade biológica, como prova provada de que nada, nem ninguém consegue parar os relógios do Tempo.

Então, até de hoje a oito.


Autor: Dinis Salgado
DM

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4 setembro 2019