twitter

Uma Mãe não se oferece, reconhece-se!

O Dia da Mãe transformou-se, progressivamente, num dos exemplos mais evidentes da forma como a sociedade contemporânea mercantiliza os afetos. Sob a aparência de celebração, instala-se uma lógica de consumo que reduz o reconhecimento da maternidade a um gesto material. As montras enchem-se, os discursos publicitários intensificam-se e a mensagem repete-se, de forma subtil, mas insistente: amar é oferecer. Mas não é.

O que está em causa não é apenas a banalização de um dia simbólico, mas a forma como esta lógica contribui para esvaziar o significado da maternidade e para perpetuar uma visão limitada da mulher. Ao transformar o Dia da Mãe num ritual de consumo, a sociedade não está a valorizar as mães; está, muitas vezes, a simplificá-las. Celebra-se não a mãe real, mas uma imagem idealizada: sempre disponível, cuidadora e resiliente. Uma figura que serve, que sustenta e que, por isso, se torna confortável de enquadrar em narrativas socialmente aceitáveis.

Esta idealização oculta a mulher por detrás da mãe. Invisibiliza a sua individualidade, os seus conflitos e os seus limites, naturalizando o excesso de responsabilidade que lhe é atribuído e perpetuando a ideia de que cuidar é uma vocação inerente, e não uma construção social marcada por desigualdades.

Espera-se que seja presença constante, suporte emocional e organizadora invisível da vida familiar, muitas vezes em simultâneo com uma vida profissional exigente. Ainda assim, raramente se questiona o peso dessa acumulação. Raramente se reconhece que, por detrás da função, existe uma mulher que também cansa, também falha e também precisa.

Neste contexto, o Dia da Mãe torna-se paradoxal. Celebra-se a mãe, mas não se transforma a forma como a sociedade a compreende e a trata. Oferece-se um presente, mas mantém-se intacta a estrutura que invisibiliza e sobrecarrega. Por isso, este dia deveria ser mais incómodo do que confortável. Deveria obrigar-nos a questionar: o que estamos, de facto, a reconhecer?

Reconhecer uma mãe exige mais do que um gesto. Exige abandonar a imagem idealizada e aceitar a complexidade da experiência real. Exige olhar para a maternidade não como um lugar de perfeição, mas como um espaço marcado por tensões e desafios. Exige reconhecer a mulher que existia antes e que continua para além da maternidade, com história própria, com limites e com direito a não corresponder a um ideal imposto. Exige, também, reconhecer que este não é um dia universalmente celebratório. Para muitas mulheres, o Dia da Mãe é atravessado por perdas e ausências que raramente encontram espaço no discurso público. Ignorar essas experiências é perpetuar uma visão estreita da maternidade.

Se este dia quiser ter significado, terá de deixar de ser apenas uma data de consumo e passar a ser um momento de consciência crítica. Um momento para repensar o lugar da maternidade e as expectativas que recaem sobre as mulheres. Mais do que oferecer, é preciso reconhecer: a mãe como pessoa, como mulher, como sujeito porque uma mãe não se oferece, uma mãe reconhece-se. E esse reconhecimento não pode ser episódico. Tem de ser contínuo, consciente e transformador.

Clarisse Queirós

Clarisse Queirós

30 abril 2026