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A política salazarista de Centeno

Num país como o nosso de tanta intriga, má-língua e bisbilhotice, nunca a máxima popular não digas mal do teu vizinho que o teu mal vem pelo caminho teve tanta atualidade e proveito; e, então, a sua aplicação à vida política nacional dá pano de sobra para mangas, pois chovem, sem pudor nem preconceito, permanentemente, tantas e tais críticas às ações de anteriores governantes, dirigentes e gestores, bem capazes de baterem recordes internacionais de escárnio e maldizer.

Assim, não espanta ouvir que o governo tal deixou o país de tanga, que o primeiro-ministro fulano se vendeu a Bruxelas e impôs ao país uma desnecessária austeridade e que o dirigente de tal partido faz o jogo da direita reacionária e capitalista e, ainda, que o banqueiro sicrano arruinou-nos a todos, mas que ele ficou bem calçado de carcanhóis; só que os que tal murmuram acabam por não ser melhores do que aqueles que criticam.

Mas, o que mesmo faz abrir a boca de espanto é ouvir por aí vozes do povo a dizer que o ministro das Finanças Mário Centeno está a fazer a política de Salazar; e isto, se analisarmos a questão à lupa, é o cúmulo dos cúmulos, já que sendo ele membro de um governo socialista, apoiado pela esquerda e pela extrema-esquerda, caso é para fazer cair o Carmo e a Trindade em termos ideológicos, basta vermos os nomes que chamaram e chamam a Salazar: fascista, reacionário e ditador.

Bom, pensando nós que a voz do povo é voz de Deus e que a sabedoria popular enche a nossa História de múltiplos e nobres exemplos de lhaneza e bom senso, não podemos menosprezar a suas críticas, mas antes respeitá-las e analisá-las; e, por isso, antes que digam que estou para aqui a fazer o jogo da reação, vamos a factos.

Quando o Doutor Oliveira Salazar foi chamado pelo presidente da República Óscar Carmona para sanar as Finanças Públicas e livrar o país da miséria que o assolava, impôs como primeira condição total independência e controlo sobre todos os ministérios; e acrescentou que, se tal lhe fosse concedido, em três meses faria o saneamento total que necessário era para a libertação do país do garrote da bancarrota; e tendo Óscar Carmona respondido que sim, não em três meses, mas num único mês as Finanças estavam salvas.

Ora, ao assumir o controlo de todos os ministérios, Salazar começou por cortar nas dotações orçamentais de cada ministério e, apenas, permitindo a cada um gastar aquilo que ele consentisse e lhe conferisse; e, desta forma, acabaram-se os esbanjamentos, as incompetências governativas e passou a vigorar o rigor nos gastos públicos.

Pois bem, há dias, ouvimos o ministro da saúde, no Parlamento, aos deputados que o questionavam sobre a miséria que grassa nos hospitais, responder que todos somos Centeno; pois isto quer exatamente dizer que é o ministro das Finanças que manda e que impõe as regras dos gastos e dotações orçamentais, tal como fez Oliveira Salazar. Agora, olhando para o país real, ele não está efetivamente tão miserável como no tempo em que Salazar assumiu a pasta das Finanças e, até, o primeiro-ministro não se cansa de dizer, sabe-se lá com que intenções, que vai tudo bem, muito bem; só que esta, para quem pensa com a sua cabeça e não com a dele, sabe que mais não é do que uma atoarda eleiçoeira, pois não é isso que o povo sente, nem consente; depois, se olharmos para a realidade do dia-a-dia dos portugueses e no que vai pelos hospitais, pelas escolas, pela Segurança Social, pelos vencimentos, pelo aumento da dívida, etc. etc. etc., não há dúvida que Centeno encarna bem o rigor e a ditadura financeira de Oliveira Salazar, apenas, com a diferença de que o Portugal de hoje não é, nem de longe nem de perto, em termos de desgraça económica, o Portugal dos finais da primeira República; e, quando muito, aqui anda a mão da União Europeia, camufladamente, a impor o garrote financeiro ou Mário Centeno a querer exigir mais do que é preciso para que o mandem embora, ou seja, para um cargo europeu.

Agora, deixo, aqui, um desafio para os meus leitores mais velhos: lembram-se, por exemplo, dos buracos que existiam nas estradas no tempo de Salazar? Pois, comecem a olhar com atenção para as de hoje e depressa notam os buracos a medrar como cogumelos; ou, então, atentem mais num exemplo do garrote financeiro de Centeno: há dias, cá na nossa cidade, a secretária de Estado da Justiça, aquando do 5°. Congresso de Investigação Criminal, perante a exigência de novas instalações para a Polícia Judiciária de Braga, já que as atuais estão em degradação acelerada, admitindo-se, assim, se tal não for possível, a saída de Braga do Departamento de Investigação Criminal, ela declarou que só com a ajuda da Câmara Municipal alguma coisa poderá ser feita; e sabe-se que o ministério da Justiça tem meios suficientes para resolver a situação.

Agora, digam-me lá se tudo isto não seria motivo mais do que suficiente para que os parceiros da geringonça (PCP e BE), numa atitude de coerência, batessem com a porta? E mais: é ou não é salazarista a política financeira de Mário Centeno?

Então até de hoje a oito.


Autor: Dinis Salgado
DM

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18 abril 2018