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O necessário e desejável esclarecimento

Se bem me lembro, e a memória me não atraiçoa, foi em 27/3/1985 que iniciei a minha colaboração com o Diário do Minho, respondendo ao desafio que me foi lançado pelo então Diretor do jornal, Silva Araújo; e, transcrevo, com muita alegria e saudade, parte da crónica desse momento com que abri tal colaboração.

Tem-se dito e escrito, não sei se por mordacidade ou por chalaça, ser à mesa (do salão, do jardim, do café...) que se tomam grandes, responsáveis e, quantas vezes, maquiavélicas decisões; e que registadas sempre foram mesmo que mais dolorosas, mais convergentes ou gostosas sejam.

Por isso, basta lembrarmo-nos que nesta óbvia circunstância, Estaline, Roosevelt e Churchill decidiram, em Ialta, fazer a partilha do mundo; e também se diz de Nero Claudius, imperador romano, que foi, à mesa, que tomou a decisão de mover contra os cristãos a primeira grande perseguição em que enorme multidão pereceu; bem como do estadista ateniense Temístocles se afirma ter ensaiado à mesa e com êxito em tabuleiro de xadrez a batalha de Salamina, após o desastre no desfiladeiro das Termópilas.

Vamos, então agora aqui transcrever uma pequena parte da crónica com que iniciei a dita colaboração neste diário e tenho a certeza de que muitos e bons leitores a vão relembrar com gosto:

Pois bem, também para que conste e se expanda publicamente foi hoje, aqui, à mesa do café, que tomei a séria e indefetível decisão de largar amarras, enfunar velas, navegar, escrever, talvez por muito, por pouco ou por quase nada, é que estou aqui, é que vim dar aqui e a escrever no Diário do Minho com periocidade e empenho para o grande público, mormente para os seus fiéis leitores de todos os dias.

E já lá vão quarenta e um anos, maioritariamente dados a reflexões, crónicas da vivência do quotidiano desta cidade e deste país que somos – homens, bichos, coisas e lousas; presença e voz física e humana desta cidade que cresce, se transforma por dentro e por fora a um ritmo lancinante, e igualmente nos transforma quantas vezes; todavia, cidade que foi menina fagueira, provinciana e brejeira e já não é.

E assim foi semanalmente presença de coisas e loisas, de pequenas coisas e lousas do dia-a-dia das pessoas e das instituições; das pessoas que se cruzam na rua, se aproximam nos cafés, se entrechocam nos balcões, se acotovelam nas filas, se comprometem nos empregos, se expandem nos tempos livres; far-se-á, também da verdade e da grandeza dos que ainda acreditam nos outros como vizinhos, como amigos e como irmãos e pessoas; far-se-á, sobretudo, da certeza de que, pese embora o egoísmo, a falsidade, a incompetência e a corrupção que grassam por aí, ainda é tempo de mandar a carta a Garcia.

Pois é, amigo leitor, a partir de agora e pelo tempo que me for possível, virei

quinzenalmente aqui falar contigo, interpelar-te, desafiar-te; e na certeza de que nos


 

vamos continuar a dar bem, a juntar-nos na defesa dos valores fundamentais, como da Verdade, da Justiça, da Amizade, da Concórdia, do Bem e da Paz.

Foi, pois, com o nosso Diretor Damião A. Gonçalves Pereira que tomei esta difícil, mas heróica decisão que tanto me custou tomar; mas o tempo urge, o caminho a percorrer já é demasiado curto e, sobretudo, há muitos e bons colaboradores do nosso jornal que merecem um lugar mais constante e permanente, direi mesmo merecem ocupar o meu lugar.

Não me vou embora, pois, como já declarei, virei aqui quinzenalmente, exceto nas épocas e datas em que o jornal tenha os seus compromissos indeclináveis e lhe escasseie o espaço para vez e voz aos seus colaboradores; entendo que, deste jeito, ainda vou dando asas à imaginação, ao deleite e ao meu gosto e vício de escrever que me acompanha desde os quinze anos de idade.

Espero, assim, que esta minha decisão que, creiam, não foi fácil de tomar, mas circunstâncias várias da vida assim mo exigem, me seja perdoada por quantos me acompanharam sempre semanalmente; e. igualmente espero que agora quinzenalmente continuem a desejar e apoiar a minha presença aqui, obviamente às quartas-feiras como sempre.

Então, até de hoje a quinze.

Dinis Salgado

Dinis Salgado

4 novembro 2026