O silêncio de que aqui falamos é muito mais que uma ausência de palavras e ações. É um silêncio cheio de conteúdo, positivo, em que nos encontramos connosco próprios. É um recolhimento que nos dá paz interior, nos permite tomar alento e nos ajuda a descobrir o que é verdadeiramente importante. Por isso mesmo, não se pode decretar silêncio como se fosse uma ação qualquer. O silêncio que procuramos requer uma adequada disposição do coração para nos encontrarmos com o conteúdo adequado, porque só assim adquire a profundidade necessária para a transformação interior.
No n.º 52 da Desiderio desideravi, o papa Francisco recorda que o silêncio litúrgico «não é um refúgio onde esconder-se para um isolamento intimista, quase sofrendo a ritualidade como se de uma distração se tratasse. Um tal silêncio estaria em contradição com a própria essência da celebração. O silêncio litúrgico é muito mais: é o símbolo da presença e da ação do Espírito Santo que anima toda a ação celebrativa; por isso, muitas vezes, constitui o ápice da sequência ritual. Precisamente porque é símbolo do Espírito, tem poder de exprimir a sua ação multiforme… O silêncio move ao arrependimento e ao desejo de conversão; suscita a escuta da Palavra e a oração; dispõe à adoração do Corpo e do Sangue de Cristo; sugere a cada um, na intimidade da comunhão, o que o Espírito quer realizar na vida para nos conformar ao Pão partido. Por isso, somos chamados a realizar com extremo cuidado o gesto simbólico do silêncio: é nele que o Espírito nos dá forma».
O silêncio da missa não é uma realidade monolítica: existem diferentes maneiras de orar no silêncio da missa, dependendo do momento em que este tenha lugar. Há vários modos de incorporar o silêncio na missa. Realçando sempre que «o silêncio faz parte do rito litúrgico de maneira tão deliberada como qualquer outra palavra ou ação. (Cf. Boniface Hics, o.c, p. 43)
A Instrução da Sagrada Congregação dos Ritos ‘Musicam sacram’, 85, afirma: «Observar-se-á, no seu momento, um silêncio sagrado. Por meio deste silêncio, os fiéis não ficam reduzidos a assistir à ação litúrgica como espectadores mudos e estranhos, mas são associados mais intimamente ao mistério que se celebra, graças àquela disposição interior que nasce da Palavra de Deus escutada, dos cânticos e das orações que se pronunciam, e da união com o celebrante naquelas partes em que é ele quem diz».
O papa Bento XVI, num encontro com os párocos e clero de Roma, em 14 de fevereiro de 2013, explicava que, no rito antigo da missa, em vigor até à reforma do Vaticano II, era como se existissem duas liturgias paralelas: uma, nos bancos, onde os fiéis rezavam diferentes devoções piedosas, e outra no presbitério, em que o sacerdote e o sacristão levavam a efeito os ritos da missa. A novidade do movimento litúrgico consistiu em unir ambas as liturgias, de forma que as devotas orações dos fiéis reunidos estivessem guiadas pelos movimentos e as orações da missa celebrada pelo sacerdote e os acólitos no presbitério. Mais: tinha-se descoberto a beleza, a profundidade, a riqueza histórica, humana e espiritual do Missal; e a necessidade de que não fosse só um representante do povo que respondesse aos diálogos com o sacerdote. Descobriu-se que a liturgia do altar e a liturgia do povo eram uma única liturgia, uma participação ativa que permita que toda a riqueza da celebração chegue e seja participada também pelo povo. Foi assim que a liturgia se redescobriu e renovou. (Cf. Boniface Hics, p. 45)
Mais ainda: para que as orações dos fiéis se coordenem com os movimentos rituais do sacerdote, devem também os seus corações coordenar-se com os gestos rituais que não são acompanhados por palavras. Vejamos o caso do Ofertório, melhor dizendo, da apresentação dos dons, em que o que realmente se espera é que os fiéis se ofereçam a si mesmos. Afirma a Sacrosantum Concilium, 48: «A Igreja, com solícito cuidado, procura que os cristãos não assistam a este mistério da fé como estranhos e mudos espectadores, mas que, compreendendo-o bem, através dos ritos e orações, participem consciente, piedosa e ativamente na ação sagrada… e aprendam a oferecer-se a si mesmos ao oferecerem a hóstia imaculada, não só pelas mãos do sacerdote, mas juntamente com ele».