Quando é que uma decisão se torna traição? Esta crónica nasceu dos rodapés dos programas desportivos que me chamaram a atenção ao associarem a palavra «traição» ao despedimento de Rui Borges. Como sportinguista e professor de Filosofia, quis perceber o que estava naquela palavra, porque uma coisa é discutir resultados, estratégia e liderança e outra é pensar no homem que fica quando lhe retiram o cargo que exercia de forma digna e profissional.
Meus amigos e amigas que me leem, um treinador tem de apresentar resultados e responder pelo trabalho da equipa, mas merece ser tratado com respeito quando o mandam embora. Em Rui Borges aprecio uma simplicidade que associo às suas origens humildes, num meio onde tantos precisam de diminuir os outros para se sentirem importantes.
A palavra «traição» vem do latim traditio, através de traditione, com o sentido de «entrega». Trair é entregar ao adversário alguém ou alguma coisa que se devia proteger, abandonando quem confiou em nós.
Mas como diz o povo, «quem vê caras não vê corações», pelo que não conhecemos todas as conversas entre Frederico Varandas e o treinador. Despedir alguém não é, por si só, trair, mas convém dizer-lhe a verdade e tratá-lo com respeito, sem lhe garantir hoje um lugar que já se decidiu retirar amanhã.
A traição representa a quebra da fidelidade a um compromisso entre pessoas e destrói a confiança que o sustentava. Entre casais, amigos, familiares ou parceiros de negócios, pode desencadear conflitos e levar à tragédia, porque quem se sente traído pode ver desabar aquilo em que apoiava a sua vida. O adversário derrota-nos, mas quem nos trai fere-nos onde julgávamos estar certos e seguros.
Voltando aos sábios gregos, Aristóteles distinguia as amizades baseadas na utilidade daquelas em que desejamos o bem do outro por ele mesmo. Quando um procura amizade e o outro uma vantagem, o afastamento deste, assim que deixa de ganhar com a relação, faz o primeiro perceber que a dedicação que ofereceu nunca teve a correspondência que imaginava.
Para os romanos, a fides era a confiança e a fidelidade à palavra dada. Marco Aurélio, filósofo estoico, escreveu nas «Meditações», no livro III, que não devemos considerar vantajoso aquilo que nos obriga a faltar à palavra ou a perder o respeito por nós próprios. Ganhar à custa do caráter seria perder.
Meus amigos, aconselho-vos a reler «O Rei Lear», de Shakespeare, onde um rei divide o reino entre as filhas que lhe fazem declarações de amor e rejeita Cordélia, que se recusa a exagerar o que sente. Depois de receberem o poder, as primeiras maltratam-no, enquanto Cordélia permanece leal, mostrando como é fácil confundir palavras bonitas com lealdade. É simplesmente uma grande lição de vida!
Mas cuidado, leitores, porque acusar não é provar, como recordam Sócrates e Séneca. Sócrates foi condenado à morte por impiedade e corrupção da juventude, não por traição, mantendo na sua defesa o compromisso com o exame da vida. Séneca foi obrigado por Nero a suicidar-se, após ser implicado na conspiração de Pisão, sem culpa demonstrada, segundo Tácito. Estes casos lembram que o poder também pode chamar deslealdade ou traição à independência de quem não se submete.
Talvez a traição mais famosa da História seja a de Judas, um dos doze discípulos de Jesus, que, segundo o Evangelho de Mateus, aceita trinta moedas de prata para entregar Jesus aos chefes dos sacerdotes e o identifica com um beijo, usando a confiança do mestre para facilitar a sua captura.
A vida continua e desejo a Rui Borges sucessos e felicidade, sem perder a honra e fazendo jus às suas raízes e à sua bela terra de Mirandela.
Obrigado pela companhia, meus amigos e amigas, e reflitam nisto.
«Mesmo quando seguimos caminhos diferentes, devemos respeito a quem caminhou connosco.»