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«Podes levar tudo o que eu tive, mas não poderás tirar nada do que eu dei»

Era uma vez um rei a quem larapiaram a sua coroa. Furibundo, resolveu não só deter o autor do furto, mas também aplicar-lhe a pena capital.

Foi então que um dos seus conselheiros o advertiu: «Majestade, já não tendes a coroa, mas nada impede de ser o que sois; continuais a ser rei».



 

O monarca anuiu: «É verdade, já não tenho coroa, mas continuo a ser rei». 

Um dia, contudo, um dos seus generais liderou uma revolta, expulsou-o do palácio e ocupou o seu trono.



 

O conselheiro reapareceu. «Majestade, tiraram-vos a coroa e a realeza, mas continuais vivo. Não é o essencial?»

O rei cogitou: «É verdade, sou um homem sem coroa e sem reino. Mas posso “reinar” sobre os meus pensamentos e sobretudo sobre a minha tristeza e a minha cólera».



 

Entretanto, a mulher deixou-o, trocando-o por um empresário na expetativa de reencontrar a opulência da vida passada.

A mulher era a alegria e o “sol” da sua vida. É certo que não lhe faltou a ternura dos filhos, que optaram por ficar com ele. Mas nem isso supriu o lugar da esposa.



 

De novo o conselheiro de sempre: «A tua mulher partiu, mas continuas a ser um homem e um pai». 

Replica o ancião desapontado: «Só que esta mulher era o “sol” da minha vida».



 

Objeta o sábio: «Que adianta um “sol” que à noite se deita no teu leito e, de manhã, prefere “iluminar” outro quarto? Triste “sol” este; pensa antes no “sol” que está no teu coração e que não perderás». 

O ancião ponderou: «É verdade que perdi o meu “sol” exterior, mas o “sol” interior está sempre a “queimar-me”». 



 

Sucede que, algum tempo depois, o fiel conselheiro ressurge coberto de lágrimas: «O tirano que usurpou o teu trono degolou os teus filhos para acabar com a tua descendência».

Desolado, o antigo rei desiste: «Que me degolem também. Sem filhos, que razão tenho para viver?»



 

Quem não se resignou foi o conselheiro: «Ainda podes viver, sim. O amor que não podes dar à tua mulher e aos teus filhos, dá-o a Deus e a quantos encontrares».

Enquanto isto dizia, faltou-lhe a respiração e morreu.



 

Abatido, o monarca sepultou-o e dirigiu-se ao tirano, confrontando-o com todos os delitos que cometera. Este não parou de troçar dele e de o agredir.

Apesar disso, ainda conseguiu responder-lhe: «Podes levar tudo o que eu tinha, mas não poderás tirar nada do que eu dei, nada do que eu sou; aí acaba o teu poder».



 

E assim expirou. Por instantes, até o tirano sentiu um respingo de vergonha perante um homem que, embora morto, exalava uma plenitude de liberdade, sem rancores nem ódios.

Não há maior poder do que a vida que se dá. É esta a vida que relativiza os poderes e torna desprezível toda a tirania...

João António Pinheiro Teixeira

João António Pinheiro Teixeira

3 novembro 2026