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Turbulência à la carte

Nos tempos mais recentes verificou-se uma confluência de acontecimentos nalguns países da Europa do sul dignos de registo e com capacidade de nos fazerem minimamente refletir: em França grandes e graves manifestações (ditas) estudantis ou de escolas; em Espanha contestações em volta do tema da habitação… em Portugal discutia-se até altas horas da madrugada a deserção de um jogador de futebol (do estágio da seleção) e o significado para o todo nacional. Não há dúvida somos muito sui generis na hierarquização das questões, dos problemas e da potencial solução. 

 

1. Olhemos por partes para cada um dos ‘acontecimentos’ extramuros: 

* Os conflitos estudantis-educação-escola – a avaliar pelas consequências as causas devem ser muito graves, mesmo que se note uma mistura de assuntos a propósito daquilo que nos era dado perceber através de alguma comunicação social engravatada e de máscara antigás. Pairava no ar o anseio de trazer para as nossas ruas idêntica movimentação de forças, de infiltrações e de convulsões. 

* O acampamento de Madrid era digno de um espetáculo do terceiro-mundo, de um tempo após algum terramoto ou de um bombardeamento em tempo de guerra: centenas de tendas armadas numa das praças mais simbólicas da capital espanhola e com um clima de crispação latente à mistura com laivos de romantismo à Woodstock…    

 

2. Para além das discrepâncias entre o que se passava lá fora e quanto por aqui se discutia, notava-se uma certa ‘nostalgia’ de fazer parte daqueles intentos, mesmo que por cá os problemas não tenham ainda atingido a dimensão de protesto vista. Mas eis que, numa praça quase central do Porto, uns tantos meninos bem vestidos e melhor arreados de convicções montam acampamento, com todos os apetrechos de outras paragens – bandeiras e lenços da palestina (keffiyeh), batuques e roupas ao sabor dos festivais de verão, cartazes e palavras de ordem (pretensamente) rudimentares, figuras e figurinhas do espectro de uma certa esquerda…tentando desordar, provocar a polícia e fazendo-se passar por vítimas no lugar de se assumirem enquanto réus… Já tivemos cobertura assanhada da comunicação social, que – como de costume – se coloca de um dos lados da barricada, mostrando o que interessa e a horas que possa dar mais audiência.

 

3. Enfrentemos sem subterfúgios os dois problemas que motivam as tais manifestações lá fora e são temas de discussão cá dentro: a habitação (muito para além de ter casa) e a educação (que muito mais do que as questiúnculas das escolas). 

* Habitação é algo conotado com ter casa onde morar. Ora uma casa revela quem somos e manifesta uma opção às possibilidades que nos são concedidas. De entre tantos direitos – sobejamente enfatizados na constituição da república portuguesa – o da habitação tem sido destacado nos tempos mais recentes. No entanto, há que distinguir o direito correlacionando-o com o dever, este terá de ser a parte que cada cidadão faz para que aquele possa ter consistência e exequibilidade. Por agora vemos mais a reivindicação em ter casa e pouco em usar os meios para o concretizar. Sobretudo os mais novos parece que querem continuar a gozar a vida e que outros lhes deem o que não se esforçam por conquistar. Quem não teve de fazer sacrifícios – contenção nos gastos, cingir-se ao essencial, fazer contas e, nalguns casos, apertar o cinto – para usufruir de algo que possa ser o seu espaço, a sua identidade e, porque não, a sua autonomia? 

* A temática da educação é algo que ultrapassa a escolarização (mínima ou suficiente) e que envolve toda uma aprendizagem inacabada. Certas regalias em vigor não foram explicadas convenientemente aos utentes de muitas escolas, embora sejam chamados de alunos e de professores, mas deviam ser sempre estudantes (uns e outros) em fases crescentes de adequação à vida em cada tempo e em cada lugar. Ministrar aulas não significa ser professor e nem mesmo as novas ferramentas deram capacidade de inteligência, talvez de habilidade, mas não de sabedoria.
 

4. A turbulência pode disfarçar, entreter, mas não forma para o futuro!

António Sílvio Couto

António Sílvio Couto

26 outubro 2026