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Braga: O Próximo Motor Criativo

Uma política cultural verdadeiramente aberta e transformadora não se baseia na imposição centralizada de gostos nem no subsidiarismo cego de modelos ultrapassados. Pelo contrário, encara a cultura como um ecossistema dinâmico de liberdade, onde a pluralidade, a iniciativa individual, a descentralização e a autonomia criativa servem como motores fundamentais de progresso social e económico. Em Portugal, poucas cidades têm um potencial tão elevado para afirmar este ecossistema contemporâneo como Braga, que pode encontrar na trajetória da cidade austríaca de Graz o roteiro ideal para potenciar e escalar as suas próprias atividades culturais.

O papel do setor público na cultura não deve ser o de determinar o que deve ser produzido, mas sim o de garantir o espaço e as condições para que a criação floresça de forma orgânica e diversificada. Ao longo das últimas décadas, Graz transformou-se num laboratório urbano de referência europeia ao adotar uma postura de facilitação institucional, descentralizando o investimento e abrindo espaço a novos criadores. Para Braga, seguir este princípio significa reforçar o apoio a coletivos independentes e infraestruturas abertas à comunidade, garantindo uma convivência harmoniosa entre o seu vastíssimo património religioso e barroco e as novas expressões artísticas de vanguarda e arte digital.

Um dos maiores ensinamentos de Graz reside na audácia do contraste e na regeneração urbana através da cultura, simbolizados pela edificação do emblemático Museu de Arte Contemporânea no coração da sua zona histórica. Em Braga, esta mesma dinâmica encontra paralelo na complementaridade entre a tradição do Theatro Circo e a vanguarda tecnológica do GNRation. A reconversão de antigos edifícios em polos de criação e a aposta de Braga na rede de Cidades Criativas da UNESCO em Media Arts demonstram como o exemplo de Graz pode ser maximizado: a cultura deve ser usada para revitalizar bairros, reconverter o edificado obsoleto e estimular um diálogo provocador entre a história e o futuro. O exemplo máximo desta complementaridade é expressa pelo facto de haver tanto exposições de arte contemporânea como no mesmo dia à tarde haver um concerto expresso no café da Ópera ( algo adaptável ao Theatro Circo), como no mesmo dia de noite haver uma Ópera ou um bailado. São diferentes mostras culturais para todos os gostos e que atraem diferentes tipos de visitas.

Os agentes culturais são também empreendedores de ideias, e o sucesso a longo prazo de uma cidade cultural depende da capacidade de atrair e reter talento individual, oferecendo condições para a sustentabilidade económica da arte. Tal como Graz dinamizou a sua vida cultural tirando partido da sua grande população universitária e das indústrias criativas, Braga — uma das cidades mais jovens da Europa — pode potenciar a sua agenda cultural ligando organicamente a criação artística ao seu ecossistema científico e empresarial. O diálogo constante entre os artistas, a Universidade do Minho, a Startup Braga e o setor tecnológico regional cria a base necessária para que a cultura seja um setor economicamente viável e atrativo para novos talentos.

A cultura não é um luxo supérfluo mantido apenas por caridade estatal, mas sim o tecido que permite às sociedades abertas prosperarem, inovarem e projetarem-se internacionalmente. Ao utilizar o modelo de Graz como inspiração para potenciar o desenvolvimento local, Braga reforça a sua competitividade urbana, atraindo trabalhadores qualificados, turismo de valor acrescentado e novas empresas. Em suma, o exemplo de Graz ensina que o futuro cultural de Braga não se constrói com decretos dirigistas, mas sim com a criação de pontes entre o património e a inovação, permitindo que a iniciativa criativa da comunidade seja o verdadeiro motor de uma cidade próspera, livre e virada para o futuro.



 

Afonso Guedes

Afonso Guedes

25 outubro 2026