Pelo fim de setembro, o meu amigo Francisco Silva, autor do livro A vanglória do abade de Soutelo, convidou-me para participar numa caminhada literária em torno do legado do Padre Francisco Xavier Leite Frágoas, que se realizaria no dia 3 de outubro. Participei no que pude e prometi a mim mesmo escrever sobre esse nome grande da história de Soutelo, Vila Verde.
Quando comecei, rapidamente me apercebi de que estávamos às portas de celebrar os 300 anos do seu nascimento. De imediato, telefonei ao Padre Marcelino Silva, pároco de Soutelo, e sugeri-lhe que promovesse uma atividade nesse dia. Foi assim que, no passado dia 22 de outubro, participei numa eucaristia de ação de graças e numa conferência, cujos oradores foram o Francisco Silva e o Eduardo Pires de Oliveira.
Numa sessão aberta pelo Pároco e pelo jovem trompetista Samuel Santos, também este de Soutelo, tivemos a oportunidade de conhecer um pouco melhor aquele que foi um dos padres mais destacados do seu tempo e uma das figuras maiores desta freguesia com muitos pergaminhos.
Francisco Frágoas nasceu a 22 de outubro de 1726, no largo de S. Tiago, em Braga, sendo o segundo filho de Manuel Ferreira Frágoas (natural de Coimbra, prestamista e possuidor de uma imensa fortuna) e de Mariana Teresa Leite da Costa (provinda de uma família com casa no lugar de Burgueiros, em Soutelo). Segundo a lei do morgadio, o seu irmão José viria a ser o dono da fortuna familiar que, em virtude do seu falecimento, foi herdada pelo irmão Francisco.
A igreja paroquial de Soutelo constitui a expressão mais visível do zelo do Padre Frágoas. As obras que promoveu foram concluídas e inauguradas, em ambiente festivo, em 1782. Considerada um dos mais significativos exemplares da arquitetura religiosa barroca do concelho de Vila Verde, a Igreja, exemplarmente cuidada, conserva a marca dessa intervenção. A fachada, a organização do espaço, os retábulos e o adro revelam uma conceção do templo como lugar de catequese, beleza e manifestação pública da fé.
Particularmente curiosa é a presença, no adro da igreja, de numerosas imagens de santos. Além de Pedro e Paulo e de Miguel, Gabriel e Rafael, estão representados vários outros com o nome de Francisco, ocupando Francisco Xavier um lugar de destaque também no interior da igreja. Esta opção pode ser lida como uma espécie de assinatura espiritual do próprio abade, ao rodear a sua igreja de figuras que evocavam nomes, exemplos e modelos de vida cristã.
A memória do Padre Frágoas ultrapassou, contudo, os limites da Igreja de Soutelo. Por volta de 1790, o sacerdote adoeceu gravemente, correndo perigo a sua vida, pois os médicos pouco ou nada podiam fazer. Devoto de Nossa Senhora, recorreu à sua proteção e afirmou ter recebido a sua visita, a que se seguiu uma extraordinária recuperação. Foi por isso que resolveu cumprir o que prometera: construir uma capela no limite norte de Soutelo.
Em 1794, dirigiu ao Arcebispo de Braga, D. Frei Caetano Brandão, o pedido de autorização para construir a capela, que não foi aceite. Depois de novas diligências, foi-lhe conferida a autorização, a 18 de agosto desse ano. A promessa transformou-se em realidade quatro anos mais tarde e a capela foi benzida solenemente a 7 de setembro de 1798. Dois dias depois, a imagem de Nossa Senhora foi conduzida processionalmente da igreja de Soutelo até ao novo templo.
Tendo começado por ser o cumprimento de uma promessa pessoal, rapidamente o santuário se transformou numa realidade comunitária. A experiência de um sacerdote passou para a memória de um povo; a devoção de um homem tornou-se a de muitas gerações. O pequeno templo levantado no final do século XVIII haveria de crescer, ser ampliado e adquirir a importância que hoje possui.
Em pouco tempo, começaram a chegar peregrinos de diferentes lugares do vale do Cávado e a devoção cresceu. A capela tornou-se centro de culto mariano e, em 1800, foi instituída a Irmandade de Nossa Senhora do Alívio. A partir daí, a história do santuário deixou de ser apenas a de uma promessa individual para se tornar uma história coletiva, feita de peregrinações, procissões, súplicas e ações de graças.