Pode parecer um pouco ousado o título que escolhi para esta semana. Penso que se trata de algo que quem vive minimamente atento não desconsidera. Perante um mundo que, passando pela experiência do ateísmo, vai reconhecendo a necessidade de qualquer coisa que nem sempre consegue explicar, são muitos aqueles que procuram respostas para as inquietações existenciais. Parecer haver tudo mas falta qualquer coisa.
Estamos a reconhecer o que a Igreja foi sempre afirmando. A santidade é um caminho para todos, só que importa discernir e encontrar um modo diferente de a encarar.
Houve um tempo em que perante a insatisfação se fugia do mundo. Muitos refugiaram-se em lugares que lhe permitissem completar outras dimensões da vida e viver alheios a tudo quanto lhes era proposto como caminho de felicidade.
A vida poderá e deverá, hoje, ter outros horizontes? A cultura moderna não estará a reconhecer uma nostalgia por valores que ultrapassem a mera mundanidade?
Aproxima-se uma festa litúrgica que vem perdendo o seu verdadeiro significado. No dia um de novembro celebramos a festa de Todos os Santos. Esta festa é uma verdadeira proposta. Foi-o no passado. E deverá ser também hoje. O bom costume de prestarmos homenagens aos mortos fez com que nem todos fossem capazes de reconhecer a inter-ligação entre estes dois dias. Uns já chegaram, outros estão a caminho; uns percorreram a viagem em fidelidade e outros precisam da nossa comunhão para alcançarem a meta.
Neste ambiente da solenidade de Todos os Santos e de recordação dos nossos mortos, é oportuno reconhecer que a santidade não é para alguns, como no passado, mas que deverá tornar-se projeto para todos.
O Papa Francisco escreveu, em 19 de março de 2018,uma Exortação Apostólica sobre o “chamamento à santidade no mundo atual”. Deu-lhe um título muito sugestivo. “Alegrai-vos e Exultai”. Há muitos caminhos. Só a santidade oferece a verdadeira alegria.
O pensamento do Papa é muito linear. “O Senhor quer-nos santos e espera que não nos resignemos com uma vida medíocre, superficial e indecisa”. É fácil contentar-se com aquilo que o mundo oferece. Há mais alguma coisa. E a felicidade este neste “mais”.
Se no passado muitos exercitaram a “fuga mundi” para encontrar tesouros escondidos, hoje o Espirito recorda-nos que “somos chamados a viver a contemplação mesmo no meio da ação, e santificamo-nos no exercício responsável e generoso da nossa missão.”
O mundo, com as suas questões e problemas, é o “convento” onde exercitar uma vida diferente. É no dia a dia que a vida em Deus acontece. Para tudo há uma lógica e um razão de ser. Se Deus é Amor, a santidade não pode acontecer fora do amor. O Papa Bento XVI recordava que “a santidade mais não é do que a caridade plenamente vivida” e acreditamos que a “atividade santifica”. Não necessitamos de fugir do mundo. Precisamos de assumir o quotidiano como “estádio” ou “ginásio” onde satisfazer as profundas “exigências” do ser humano.
São muitos aqueles que, no hoje da história, compreenderam esta “novidade”. O Papa Francisco recorda, entre outros, o testemunho do Cardeal Francisco van Thuan preso durante anos por causa o Evangelho. Antes, durante o tempo em que esteve preso e depois, decidiu “viver o momento presente, cumulando-o de amor” e concretizou este seu propósito afirmando: “Aproveito as ocasiões que vão surgindo cada dia para realizar ações ordinárias de maneira extraordinária”.
Há dias saiu, em edição portuguesa, um pequeno livro que a capa apresentava como “O livro de cabeceira do Papa Leão XIV”. Li-o nas férias. Aí se descreve a experiência dum monge, Frei Lourenço da Ressurreição, morto em 1691. Como monge não deixou de ser simples cozinheiro. O livro oferece-nos quatro conversas e quinze cartas. O titulo é sugestivo e deveria tornar-se programa. “Prática da Presença de Deus”. A vida é um emaranhado de coisas e experiências. Pode-se viver a “presença de Deus”. Isto é verdadeira espiritualidade e responde aos anseios duma humanidade inquieta.
Daí que também eu, como o Papa Francisco, afirme: “Não tenhas medo de apontar para mais alto, de te deixares amar e libertar por Deus. Não tenhas medo de te deixares guiar pelo Espirito Santo. A santidade não te torna menos humano, porque é o encontro da tua fragilidade com a força da graça. No fundo, como dizia Leon Bloy, na vida “existe apenas uma tristeza: a de não ser Santo” (Alegrai-vos e Exultai, 34).