Adélia Prado é uma das maiores escritoras de língua portuguesa, mas não se pode dizer que seja amplamente conhecida em Portugal. Os escritores mais famosos entre nós, aliás, nem sequer são escritores no exacto sentido literário do termo. Na terça-feira, Adélia Prado obteve mais uma distinção, o Prémio Literário Biblioteca Nacional do Brasil 2026 com o livro O jardim das Oliveiras [1].
Devemos à Cotovia, uma das mais inesquecíveis editoras portuguesas, o empenho de, nos primeiros anos do século XXI, dar a conhecer aos portugueses a extraordinária autora, hoje com 91 anos. Bagagem, em 2002; Solte os cachorros, em 2003; e Com licença poética, uma antologia seleccionada e prefaciada por Abel Barros Baptista, também em 2003, fizeram com que, em Portugal, Adélia Prado se tornasse, para tantos, uma dessas poetas simultaneamente lidas, admiradas e amadas.
Em diversas notícias que têm sido difundidas a propósito da distinção acabada de receber, há uma curiosa menção extra-literária: a escritora recebeu uma bênção apostólica enviada pelo Papa Leão XIV, na sequência de um pedido encaminhado pela diocese que tem o nome adequado para ser a terra natal de Adélia Prado, Divinópolis.
Outra referência circunstancial dá a saber que Adélia Prado está a recuperar de uma nova queda sofrida em casa na segunda-feira. A imprensa do Brasil repete que a poeta é “um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea” e não seria descabido se dissessem que é um dos principais nomes da literatura contemporânea de língua portuguesa.
Depois de, na terça-feira, ser conhecida a atribuição deste prémio, depois de amanhã, dia 27, saber-se-á se Adélia Prado receberá também o Prémio Jabuti 2026, na categoria poesia, igualmente com a obra O Jardim das Oliveiras. Se os prémios tivessem mais valor do que o que têm, registar-se-ia que a poeta já tinha recebido o Jabuti com o seu segundo livro de poemas, O Coração Disparado, em 1978. E, já agora, por falar em distinções, a autora também recebeu o Prémio Camões em 2024.
Numa entrevista recente, Adélia Prado foi questionada sobre como imagina que a poesia sobreviverá numa época dominada por algoritmos e velocidade e sobre se o excesso de informação não nos estará a tornar menos atentos ao sagrado [2]. “Só se quisermos”, disse ela. “Talvez possamos pensar em mais obstáculos em nossa realidade atual, mas não sei, precisaria ter tido a experiência em um mundo antigo para falar sobre isso com certeza. Quais terão sido os obstáculos enfrentados pelo mundo na época em que Rumi [poeta e místico sufi do século XIII] viveu? Acredito que o exercício do sagrado é possível em qualquer era”.
O encontro entre o sagrado e a poesia suscitou incontáveis interrogações à autora. “Se Adélia Prado não faz poesia sozinha, então quem cochicha o poema?”, foi uma pergunta formulada noutra ocasião [3]. “É o Espírito Santo que escreve, não é a gente não. Isso quando a gente escreve alguma coisa que presta, né?”, respondeu, acrescentando: “De vez em quando, a gente é abençoada com um verso muito bom. E às vezes dá vontade de escrever um verso maravilhoso, o mais bonito do mundo, mas não adianta, ele não vem. É na hora que Deus quer, ele toca você.”
O que Adélia Prado valoriza é o mistério. “Na fé, em qualquer religião, você adora é o mistério. Porque, se o adorável não fosse o mistério, você não o adorava”, considera a poeta. “Isso me trouxe o entendimento da poesia como coisa religiosa, ligada ao transcendente, ligada ao espírito, por causa da beleza. Se eu tirar um único verso, o poema desaba. Se eu puser um a mais, ele desaba do mesmo jeito. Então, é puro mistério: eu estou falando de coisas que não entendo.”
Ao entregar, no dia 18 de Fevereiro de 2025, no Palácio Itamaraty, em Brasília, o Prémio Camões a Adélia Prado, o Presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva disse que “Adélia nos ensinou que a vida é mais tempo alegre do que triste. Uma lição atual e necessária. Em tempos de crises econômicas, catástrofes climáticas, guerras e pandemia, não sucumbir ao desalento é um ato de resistência. É na desesperança, no medo e no ressentimento que viceja o ódio como projeto político” [4]. Uma lição para hoje, para este domingo brasileiro.
[1] Desirée Miranda – “Escritora Adélia Prado vence Prêmio Literário Biblioteca Nacional 2026 com o livro ‘O jardim das Oliveiras’”. Central Brasileira de Notícias (CBN), 21 de Outubro de 2026
[2] “Entrevista com Adélia Prado, escritora homenageada pelo Sesc PR em seu maior evento literário” – Sesc Paraná, 11 de Agosto de 2026
[3] André Gravatá – “Penso todo dia em sexo, morte e Deus”. Piauí, 27 de Maio de 2026
[4] Mayara Souto – “Lula e presidente de Portugal entregam Prêmio Camões à poeta Adélia Prado”. Correio Braziliense, 18 de Fevereiro de 2025