O cão, segundo dizem alguns antropólogos, não foi um animal domesticado pelo homem, apenas se juntou a ele; talvez julgasse estar com uma matilha diferente da sua espécie. Seja isto verdade ou probabilidade, a verdade hodierna é que estes animais estão numa ascendência social de estima que representa já uma coisa com sentimentos recíprocos. Temos como exemplo, o Fiel, o cão de Guerra Junqueiro, e o Hachik de Shibutuya; o primeiro foi morrer à porta do seu dono, mesmo depois de ser repudiado, e o outro esperava diariamente pelo regresso do dono na estação onde o vira embarcar. Assim fez, mesmo depois da morte do dono. Foi o caso do “master voice”, do cão da estação e de tantos outros casos de dedicação e de um ou outro que salvou de morte certa a criança com quem brincou. Que este animal tem sentimentos diferentes dos instintos, parece estar mais que provado. É nesta extensão dos afetos que atualmente se encontra a relação aos humanos. Não sei se já lá vão os tempos de os apresentar como habilidades de circo, ou artista de arcos de fogo. É um animal que, como sabemos, até já come à mesa com a dona. E há os de colo, vestidinhos à maruja, outros usam óculos à corredor de automóveis, têm várias capas e agasalhos de acordo com a estação do ano e, desta maneira, o cão ganhou o carinho dos humanos. Como um dia aqui disse, já os vi ser tratados como filhos. Contou-me um tio de minha mulher que conheceu um cão que se batia de igual para igual com um lobo. Um dia apareceu não apenas o lobo do costume, mas uma matilha de cinco para vencer o cão. Mas este não se negou ao combate porque estava, como sempre estivera, à guarda do menino da casa. Todo mordido , afugentou a matilha mas tinha sofrido graves ferimentos e morreu ao lado do berço do menino. Esta história, assim contada, deixa-nos predispostos para admirar este herói. Tenho visto na rua, às horas diversas, cães a ser passeados pelos seus donos que, num ato de cidadania, recolhem os seus dejetos. Mas, como na nossa sociedade de homens, há uns que são cãezinhos de colo e outros que são cães de coleira de casota. Até para ser cão tem de haver sorte. Não gosto dos cães amestrados, mas gosto ainda menos dos amestradores. Conheço, como certamente os leitores estão fartos de conhecer, as excecionais aptidões do cão para desempenhar qualquer papel, mas fazer de um deles “menino das alianças” num casamento religioso, nunca esperava por esta. Mas houve um senhor padre que tal consentiu. Mas a igreja de todos, todos, todos, do Papa Francisco, permite que um cão seja o menino das alianças numa cerimónia esponsal? Consentir, consentiu porque eu estava nesse casamento. Nada me surpreenderá se, um dia, o porco for padrinho de casamento religioso.
O cão, menino das alianças!
Paulo Fafe
26 outubro 2026