twitter

Ao ecoar dos sinos

Dados históricos extraídos da obra do escritor romano, Caio Plínio Segundo, “o velho”, (23 a 79 dC) dizem-nos que, nessa altura, já havia um renque de sinos no túmulo de um rei da Toscana. E que o sino era usado na velha Roma para anunciar a hora do banho. Mais, que, se crédito a história merece, foi o general romano e governador da Britânia, Caio Seutônio Paulino, quem nos anos 400 dC estabeleceu o uso de sinos na Igreja. Batizando-os, entretanto, com nomes de algumas figuras do Evangelho. 

Ora, hoje, é raro o templo cristão que não possua a sua torre sineira, de onde emanam acordes ao ritmo dos momentos litúrgicos. Sendo ao ecoar dos sinos que, pelo menos a mim, me assoma à memória não só o Natal e a Páscoa, como outros acontecimentos. Sobretudo, os por mim vividos lá na Paróquia nos meus tempos juvenis; de subir à torre com o servo não só para com ele aprender, como vê-lo tocar aqueles 4 exemplares pesadões. Encantando-me a mestria com que o fazia, mesmo sem ter tido aulas de música. 

Ou não fosse a nossa Cidade dos Arcebispos e todo o seu concelho, um ícone sineiro que serviu de mote ao atual logotipo bracarense. Só para dar um exemplo de que assim é, estava eu a assistir a um documentário televisivo sobre Moçambique quando o cameraman focou um dos sinos da torre da Igreja de Inhambane em que, curiosamente, tinha nele gravado o nome do sineiro bracarense, Serafim da Silva Jerónimo. 

Aliás, foi com um jovem moçambicano, estudante do ensino preparatório de Inhambane, que no ano letivo de 59/60, aos 11 anos, trocamos correspondência. Dado existir um convénio aceite por ambos os lados do Atlântico, no sentido de promover o intercâmbio cultural entre alunos. Depois, veio a guerra colonial e tudo se perdeu. 

Ocasiões houve, em que os sinos badalavam com demasiada frequência, o que perturbava alguma gente. Pelo menos, desde que os relógios das Igrejas começaram a fazê-los vibrar à passagem das horas. A propósito, cito a experiência que tive, há mais de 50 anos, quando um casal amigo me convidou para passar um fim de semana na sua casa, em Caldelas. Tudo correu bem, exceto no momento da deita, pois sempre que começava a adormecer, logo acordava com o som estridente dos sinos da torre da Igreja a tocarem (via altifalantes) uma melodia religiosa a cada hora da noite. Escusado será dizer que não preguei olho. 

Desconforto à parte, direi que os sinos assinalam a presença da Igreja de Cristo na terra. E o seu tocar anuncia aos fiéis a realização das respetivas atividades religiosas. Uma identidade cristã distinta de quaisquer outras religiões, inclusive daquelas que vêm invadindo o nosso Portugal. Já que os sinos, para além da mística envolvente, transmitem-nos não só alegria por altura das festas do calendário litúrgico e dos casamentos e batizados, como tristeza pelo seu som plangente a finados em ocasiões de morte. Funcionando como geradores de receita para as despesas inerentes ao culto, sustentabilidade do clero e manutenção do templo.

Daí, ter sido elaborada, *em 08 de abril de 1909, na freguesia em que nasci e cresci, ma tabela de preços a pagar pelo respetivo toque dos sinos. Assim, por mera curiosidade, ei-la: em caso de pessoa estranha pretender o repique dos sinos deverá pagar a módica quantia de 2.000 reis, sendo 1.000rs para a Junta e 1.000rs para o sacristão; para o funeral de pessoa de fora da Paróquia 600rs; por pessoa adulta da freguesia1.000rs; por menor de 7 anos, 300rs; repique por um batizado ou casamento 100rs. Valores, esses, repartidos pelas duas entidades. Ex. (1.000rs=1$00=€200, 482).

Ademais, o regulamento estabelecia, para além de outros parâmetros, o limite não só ao número de toques, 5 por dia, como a duração de cada um não exceder os 10 minutos. Com a proibição, ainda, de não haver lugar ao tocar dos sinos durante o período noturno. Exceto por causas extraordinárias, como em caso de incêndio ou outras de idêntico quilate. 

*(pág. 157 da obra do Pedro de Merelim) 

Narciso Mendes

Narciso Mendes

26 outubro 2026