Nos dias que correm tem-se falado e vai continuar a falar-se do Orçamento para 2027. Nem sempre com tino. Admitir, ainda sem ser conhecido o documento, que se vai votar a favor, contra ou se abstém, considero que é um mau princípio. Como se pode admitir que se vota num sentido sem se conhecer e discutir o documento? Note-se que a abstenção também exige um conhecimento aprofundado sobre o objecto do pronunciamento. Fez-me sempre uma certa confusão ouvir um ou outro partido a declarar um juízo prévio sobre algo que se não conhecia. O Partido Comunista tem sido, seguramente, a força política que mais usou esse critério que considero desatinado. Estranhei o Partido Socialista seguir, este ano, uma linha que lhe não é natural.
Concordo que “as legislaturas devem ser completas”, para preservar a estabilidade governativa e respeitar a implementação das políticas que tenham ido a sufrágio, mas isso não significa que se possa aceitar a irresponsabilidade, ainda mais por parte de quem faz parte do chamado “arco da governação”, de assumir uma posição sobre um documento de enorme importância para o país, como é o Orçamento de Estado, sem o conhecer. E ainda que o conhecesse, de facto, a formalidade também não é despicienda e, além do mais, fica bem. Completar aquela afirmação com a salvaguarda de que pode haver uma “atitude mais rígida” no futuro só acrescenta mais dúvidas. Em primeiro lugar, que as palavras do dirigente que as proferiu fazem parte apenas da estratégia política num momento em que não é ainda muito clara a preferência dos portugueses relativamente à força política que quer ao leme do próximo governo do país. Em segundo lugar, porque se espera que o actual Executivo continue a escorregar nas propostas que fez aos eleitores e não está a conseguir implementar, por incapacidade ou razões que o ultrapassam, em todo o caso, a derrapar nas promessas. A posição socialista não “é ser uma oposição responsável”, ainda que pouco “barulhenta”, para utilizar algumas palavras do tal responsável socialista, é ficar à espera que outras condições surjam. Pode ser que para o ano o Partido Socialista tenha interesse em empreender uma “atitude mais rígida” e marimbar-se para as legislaturas completas! Se der jeito, por que não?!… Isto é que é “clareza”, “sentido de responsabilidade”, não criar “situações de instabilidade”, de “interrupção de governo”, etc! Não nos faça de lorpas, Dr. César! Tudo isto, mesmo que não “se concorde com o orçamento”! São os “elevados riscos”, caros eleitores! Espera-se, claro, que não haja debanda por parte destes que, por ora, parecem apostar em cavalo diferente para a próxima vez! O que custa é saber-se agora que isto da carta branca - a abstenção para que o Orçamento seja aprovado -, só valerá enquanto não houver um avanço significativo que ultrapasse o erro estatístico da previsão.
Era escusado antecipar tanto o sentido de voto. O Partido Socialista podia ter esperado pelo tempo próprio, que não era nem sequer agora e muito menos antes. Se todos fizessem o mesmo, acabaria aquele momento de expectativa que é quando o Presidente da Assembleia da República pergunta: “Quem vota a favor, quem..” Pessoalmente, não gostei. O que se vai passar a seguir é simples: os socialistas vão fazer muitas críticas ao documento, o Governo vai criticar as propostas do partido de José Luís Carneiro e este não vai poder alterar o que foi anunciado, está preso à decisão intempestiva e não vai poder dizer que não foi à festa quando o próprio se fez convidado, ainda que não aprecie nada o noivo, ou será ciumeira?