Ao longo das últimas décadas, a historiografia tem procurado avaliar, à luz da documentação disponível, as opções diplomáticas do Vaticano durante a II Guerra Mundial (1939-1945). Além do já conhecido debate em torno dos chamados “silêncios” de Pio XII (1876-1958), destacam-se os estudos sobre as iniciativas de apoio às vítimas (a «diplomacia da caridade», que levou assistência e refúgio às geografias mais variadas) e também a reflexão sobre os limites da intervenção pública da Igreja num contexto de guerra e de violência extremas. Neste âmbito, importa recordar o contributo de Johan Ickx, “Os Judeus de Pio XII” (2022), que apresenta documentação e reflexões oportunas para a compreensão deste tema.
A partilha que queremos aqui trazer sublinha o contributo eminente de duas jovens mulheres portuguesas, que procuraram incentivar o Sucessor de Pedro a realizar um gesto concreto em vista da obtenção da paz no mundo e para que a voz da Igreja se fizesse ouvir durante a guerra. São do conhecimento geral os insistentes pedidos da Irmã Lúcia de Jesus (1907-2005) para que o Santo Padre consagrasse a Rússia ao Imaculado Coração de Maria, no seguimento das aparições quer na Cova da Iria quer das integrantes do ciclo cordimariano (1925-1929). A jovem Alexandrina Maria da Costa (1904-1955), a partir da pequena freguesia de Balasar e com a ajuda do seu primeiro diretor espiritual (Pe. Mariano Pinho, SJ), unia-se aos pedidos da Irmã Lúcia, enviando a Pio XI e a Pio XII vários pedidos para a consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria, entre os anos de 1936 e 1941.
As cartas destas jovens mulheres aos Papas surgiram no seguimento de outros pedidos feitos por grandes assembleias católicas, que desejavam ver concretizada a consagração do mundo ao Coração de Maria, tal como tinham sido numerosas as consagrações realizadas por várias nações ao Sagrado Coração de Jesus, na transição do século XIX para o XX, e que culminaram com a criação da Solenidade de Cristo Rei, em 11 de dezembro de 1925, pelo Papa Pio XI (cf. David Sampaio Barbosa, «A Irmã Lúcia e a consagração ao Imaculado Coração de Maria»). Os apelos de Lúcia e Alexandrina inseriram-se nesta dinâmica e tiveram eco junto do Papa (relativamente a Alexandrina, a Santa Sé pediu, por três vezes, ao Arcebispo de Braga informações sobre a jovem de Balasar). Assim, em 1942, o papa Pacelli decidiu fazer a «Consagração da Igreja e do Género Humano ao Coração Imaculado de Maria».
Este ano assinalou um ponto de viragem decisivo no rumo da guerra, especialmente na sua frente oriental, com o início da batalha de Estalinegrado, onde as forças alemãs viriam, no ano seguinte, a dar sinais de enfraquecimento. Pio XII, apesar de ser pontífice apenas há quatro anos, conhecia de perto a complexidade da situação, uma vez que tinha sido Núncio Apostólico na Baviera (1917-1929) e Secretário de Estado de Pio XI (1930-1939). Ao mesmo tempo, 1942 assinalava as bodas de prata da sagração episcopal de Eugénio Pacelli e da primeira aparição de Nossa Senhora na Cova da Iria, ambas ocorridas num Domingo, 13 de maio de 1917.
Em 31 de outubro de 1942, foi realizada a Consagração através de uma radiomensagem dirigida aos fiéis portugueses, ato que viria a ser repetido na Basílica de São Pedro, a 8 de dezembro seguinte. Na mensagem que dirigiu aos portugueses, Pio XII pede que estes não se esqueçam «da imensa tragédia que atormenta o mundo», que se encontra «dilacerado por exiciais discórdias, abrasado em incêndios de ódio, vítima das suas próprias iniquidades», e da Igreja, corpo de Cristo, que «pena e sangra em tantas partes e por tantos modos atribulada». O pontífice dirigia-se à Mãe do Céu, pedindo-lhe que se comovesse com as «ruínas materiais e morais; tantas dores, tantas agonias dos pais, das mães, dos esposos, dos irmãos, das criancinhas inocentes; tantas vidas ceifadas em flor; tantos corpos despedaçados numa horrenda carnificina; tantas almas torturadas e agonizantes, tantas em perigo de se perderem eternamente!».
Não pretendemos aqui discutir em que medida esta consagração correspondeu aos pedidos atribuídos à Virgem Maria, tanto mais que o tema conheceu desenvolvimentos posteriores, através de novos atos de consagração realizados por outros pontífices. O que pretendemos assinalar é que, num dos momentos mais dramáticos da história mundial do século XX, duas portuguesas destacaram-se no insistente apelo ao Sucessor de Pedro para que levantasse a sua voz ao mundo e erguesse as suas mãos ao céu a fim de que parassem as crueldades atrozes que afligiam a humanidade.
Este apelo forte e repetido de Pio XII encontra também as suas raízes nos pedidos destas duas jovens portuguesas recolhidas em duas realidades completamente distintas. A Irmã Lúcia vivia na comunidade da Congregação das Irmãs de Santa Doroteia, em Tui; por outro lado, Alexandrina estava já acamada em Balasar, num momento crucial da sua vivência mística com o Senhor, quando (precisamente a partir de 1942) passou a alimentar-se exclusivamente da Eucaristia.
Neste tempo tão contraditório e instável que atravessamos, é indispensável recordar o exemplo destas mulheres. Vivendo de modo discreto, quase ocultas do espaço social, estavam atentas à realidade do mundo, e os seus apelos ao Sucessor de Pedro foram ocasião para que este levantasse a voz para pedir a paz, denunciando o sofrimento de tantas pessoas no contexto dilacerante da guerra. Que a Venerável Lúcia de Jesus e a Beata Alexandrina Maria da Costa nos inspirem a manter uma vivência do Evangelho atenta e solidária com os dramas humanos que nos circundam, sabendo que é do céu que nos vem a paz “desarmada e desarmante” (Leão XIV), a única capaz de garantir ao ser humano a sua plena dignidade.