twitter

Irritações aguadas

Terminada a época de verão, mas ainda com laivos daquele calor mais ameno, duas modas, uma mais velha que outra, que se instalaram. Têm a ver com água e apenas com água, mas que me irritam. Água em estado líquido, água em estado sólido. A nova moda passa por nos ser apresentado em restaurantes – e parece que é a descoberta da roda, ou talvez duma pequena galinha dos ovos de ouro e até aí tudo bem – água da torneira dita filtrada, embelezada por garrafas mais ou menos estilizadas. Chegamos, pedimos uma garrafa de água para acompanhar a refeição, e eis que, sem nos perguntarem nada, lá vem a aguinha filtrada como se fosse a última bolacha do pacote, toda bonitinha, design sofisticado, com uma tampa não lacrada e suscetível de lá ter entrado tudo e mais alguma coisa. Fomos pioneiros em 2005 na imposição das garrafas de azeite colocadas à disposição do cliente em restaurantes, hotéis e cafés obrigatoriamente invioláveis e não reutilizáveis, com o objetivo principal de combater a fraude alimentar e proteger o consumidor; é, igualmente desde há muito, boa prática a abertura de garrafas de vinho, água ou refrigerantes apenas sob o olhar do cliente, mas a água filtrada – seja, ou não, não temos como o saber – vem em garrafas sem estarem seladas ou lacradas, desconhecendo-se o que lá vem. Mas pior do que esta nova ideia, é os preços absurdos que se levam, muitas vezes expressos nas ementas apenas como água (e não com a menção que se impõe de “filtrada”) e, mais frustrante, sequer alguns já têm a opção por água engarrafada, ou quando a têm não têm o cuidado de questionar o cliente sobre que tipo de água pretendem, enfiam aquela a ver se passa! Estas práticas, algumas abusivas, trazem associados riscos potenciais graves na segurança e higiene alimentar. Há pouco tempo a autoridade francesa de segurança alimentar identificou riscos associados aos filtros através de substâncias indesejáveis e deterioração da qualidade microbiológica em águas filtradas. Os filtros removem ou reduzem o cloro deixando a água vulnerável a contaminação. Quem controla a filtragem, quem controla a higienização das garrafas, utilização após utilização e as tampas que acompanham as mesmas? Da mesma maneira – esta moda mais velhinha – é a de apresentarem aos consumidores refrigerantes com gelo; se pedirmos um, maioritariamente e por defeito, lá vem um copo cheio de gelo. Nada contra para quem gosta de aguar bebidas, mas não terem o cuidado de perguntar antes à pessoa se pretende com gelo, assumindo-o, é de dar dores de cabeça. Pedimos a bebida x, lá vem o copo com gelo, obrigando, ou a mandar para trás ou a termos – tal é o que está enraizado – já de pedir antecipadamente “quero a bebida, mas sem gelo” e muitas vezes, de tal maneira se depositou nos cérebros dos empregados que não ouvem ou esquecem na ida e volta de alguns passos, e lá temos de dizer – quantas vezes perante o enfado, não nosso, mas do empregado – “era sem gelo”. Pior, pior, são aqueles a quem se pede a bebida e a trazem natural com o gelinho para a refrescar! Tais quais os riscos da água filtrada, o gelo se fabricado com água não tratada pode conter bactérias (muitas que causam gastroenterites), parasitas e muitos outros microrganismos prejudiciais à saúde e transferíveis para o gelo, por exemplo através das mãos ou superfícies contaminadas e até as máquinas de gelo podem apresentar níveis de contaminação. Portanto, eu digo não a gelo e águas filtradas não pedidas, muito menos à não obrigatoriedade de opção nestas últimas. No fundo, não se trata apenas de gosto ou de uma contrariedade à mesa. Trata-se de informação, segurança alimentar, escolha e respeito pelo consumidor. Se uma água filtrada é apresentada como alternativa, deve ser identificada e escolhida, sem substituir o que o cliente pediu. E o mesmo vale para o gelo. Quando em causa alimentos, os pormenores fazem parte da segurança. Ninguém deve ter de adivinhar o que lhe será servido, nem pagar por aquilo que não pediu.

António Lima Martins

António Lima Martins

13 outubro 2026