Não se trata de reverter a obra da criação, mas – pelo contrário – de a reconduzir à sua integridade.
Quem tem de «descriar» não é Deus, mas o homem; não é o Criador, mas quem, com Ele, participa na criação.
Deus confiou o mundo à intervenção do homem (cf. Gén 1, 28). Porém, o homem vai deformando o mundo sem a permissão de Deus.
É imperioso que a humanidade «descrie» muito do que anexou à criação, desfigurando-a à medida do seu egocentrismo sem freio.
Eis a oportunidade para um ressurgimento. Voltar ao ponto de partida?
Não é preciso ser perito na Escritura – basta ler, por exemplo, Giorgio Agamben – para reconhecer que «o nada é o ponto de partida da criação». Assim sendo, o coroamento da criação será «voltar ao nada do qual deriva a criação».
Estamos, portanto, perante uma reconstituição ou uma restituição.
A «descriação» não implica dissolver – ou demolir – a criação, mas devolvê-la «à sua unidade original no Espírito de Deus».
Por muito paradoxal que pareça, só quando nos «”descriamos”, renunciando ao “eu”, é que nos tornamos cocriadores».
Participamos na criação «”descriando-nos” a nós mesmos». Não é o poder que nos habilita; é o amor que nos capacita.
A «descriação» é, pois, a «conclusão transcendente da criação», uma «extinção em Deus», que fornece uma «plenitude de ser». A criação ficará concluída «quando renunciarmos ao nosso “eu” por amor a Deus».
Consentir em não ser nada «não é destruição, mas transição para uma realidade superior». Não espanta que Simone Weil propugne amar o «não ser nada. Amo o meu nada, o meu “não ser nada”».
É sabido que, na cultura egocêntrica que nos sufoca, tentamos desesperadamente ser «algo», ser «alguém». Quem aceita de bom grado ser «nada» ou ser «ninguém»?
Daí que não superemos a crise da civilização, incluindo a crise da religião. Além do clamoroso decréscimo da atenção, defrontamo-nos com um «eu» cada vez mais forte.
Se repararmos – como Byung-Chul Han reparou –, «a nossa atenção gravita em torno do “eu”. Rendemos homenagem ao culto do “eu”, no qual cada um é “sacerdote” de si mesmo».
E neste regime neoliberal de alcance planetário, «o “sacerdote” de si mesmo é designado como o “empresário” de si mesmo». No limite, «todas as coisas, a não ser o “eu”, deixam de existir».
Por conseguinte, é urgente «entregar o meu “eu” a Deus, convertendo-me no olho límpido de Deus, através do qual Ele contempla a Sua criação intacta, não distorcida pelo “eu”».
É preciso que nos retiremos «para que as coisas recuperem a felicidade de serem vistas por Deus».
O melhor é – como sugeria Kierkegaard – «confiar todas as preocupações a Deus, como fazem os lírios e os pássaros; então ficaremos incondicionalmente felizes como eles».
Na «descriação», o «eu» anula-se para renascer na verdadeira criação. É por isso que «a humildade nos torna semelhantes a Deus»!