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Deixa passar que são banhistas

Creio que ninguém tem dúvidas de que no país tudo anda aos solavancos.

Não se vislumbra na vida nacional uma actuação com normalidade. Tudo parece irregular e abaçanado. Vive-se de falhas e nas falhas; de dúvidas e do disse-disse; dos empurrões e dos encontrões; das habilidades programadas na noite e do cirquismo diurno na praça pública. “É um fartar vilanagem”, como diria Agostinho Caramelo.

Este intróito porque o político Pedro Passos Coelho, fez há dias um estudo de como vive economicamente Portugal e de como deveria viver. Enquanto poucos viram no referido estudo “algo de importante”, muitos riram-se do estudo e do autor.

Este político de segunda de uma terceira categoria (para mim, claro!) apenas apresenta alaridos: nada diz que seja novo e o que pensa ser novo já é velho como o cotón. Quem desconhece que é preciso produzir muito mais em Portugal e com custos mínimos? Isto é, com mais produção e com o mínimo de mão-de-obra, claro. Este senhor político, pressiona o Primeiro-ministro Luís Montenegro, do seu Partido, apenas para lhe dizer que tem voz e que está vivo. Demagogia!

Os leitores do Diário do Minho já me conhecem. Sabem que escrevo claro, aponto e critico asneiras. Não escrevo por entrelinhas e já nada me surpreende ou assusta.

O senhor Passos Coelho sempre teve o dom-da-palavra, serviu alegremente o PSD, cresceu entre a família iniciada por Sá Carneiro, mas… parece que nunca entendeu Portugal, Sá Carneiro, e esqueceu-se da família social-democrata. Pelo que – ao iniciar o poder no país – tornou-se em soldado vulgar. Logo, é necessário frequentar a Escola de Cabos e por aí acima, se quer ser notado na Parada Nacional. Mais: este senhor até parece viver desesperado dentro do PSD ou então retiraram-lhe a cadeira onde era costume sentar-se.

Durante o pouco tempo em que foi Primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho nunca criou empregos e nunca cresceu a economia no seu mandato, ao contrário do que diz agora ter de fazer Luís Montenegro e segundo o seu estudo, a tal obra que dará que falar ao mundo. No seu mandato, nunca se conheceram – a seu lado – os maiores da economia, os mais inteligentes, os mais sérios da política e convidou os jovens licenciados e técnicos a emigrarem. 

O senhor Passos Coelho – que tentou sobrepor-se à Constituição da República - subserviente da diabolizada Troika em Portugal e de Ângela Merkel da Alemanha, esvaziou os cofres da ADSE, dinheiro dos descontos mensais nos ordenados de um milhão e duzentos mil funcionários do Estado, instituição sob orientação do ministério das Finanças – para pagamentos externos da dívida do país e de seguida atirou com a instituição (ADSE) para a alçada do Ministério da Saúde, sem que ninguém fosse achado ou ouvido, uma vez que os descontos para a ADSE nunca foram nem nunca será dinheiro do Estado, mas sim dinheiro que atenua as despesas dos funcionários públicos na Saúde.

O senhor Passos Coelho, no seu mandato, não fez crescer a economia e nem aumentou os empregos, ao contrário do que agora recomenda o seu dourado estudo. Tal mandato, teve algum aumento económico: como José Sócrates já tinha feito antes dele, também P. Coelho usurpou durante mais de quatro anos nas pensões dos aposentados do Estado, acção que em plena campanha para as legislativas afirmou que nunca faria o que fez Sócrates: “nunca eu mexeria nas pensões dos servidores do Estado”. E fez depois muitíssimo pior que aquele que derrotou nas legislativas. Logo, tal assalto – que ainda hoje não foi remendado por nenhum Primeiro-ministro – foi como um assalto à “propriedade privada”, como bem classificou o ex-ministro das Finanças, Miguel Cadilhe. Razão porque um amigo de P. Coelho, ao querer defender este e atacar Miguel Cadilhe pelo que publicamente disse, chamou aos pensionistas do Estado de “pestes brancas”.

Por ter sido assim – pois o que aqui se afirma é sobejamente conhecido dos portugueses – P. Coelho sofreu o “golpe na Assembleia da República”, que deu origem à famosa “geringonça”, bem como à orfandade do PSD e à fuga de simpatizantes para a extrema-direita. Este ex-líder do PSD, por imprevisibilidade, débil carácter e no fundo-no-fundo por uma certa inocência política, esvaziou-se e apenas lhe resta o mau passado político, que, pensa ter sido êxito. 

Talvez pense o autor do “milagroso” estudo económico referido, que pode destituir Luís Montenegro no Partido e no Governo e possa chamar para seu vice-Primeiro ministro, André Ventura. 

Não adianta, pois, as televisões fazerem grandes ecos do seu recente “estudo económico” com bitaites ou blindagens favoráveis, porque não têm onde se possam aparafusar. Sendo assim e salvo melhor opinião, Portugal só tem uma saída: deixa passar que são banhistas.

(O autor não segue o acordo ortográfico de 1990)

Artur Soares

Artur Soares

18 setembro 2026