Braga passa décadas a tentar resolver o trânsito. E o trânsito continua lá. Cada nova solução rodoviária parece resolver o problema durante alguns meses, até tudo voltar ao mesmo.
Em Braga, o trânsito da Rodovia (entre a rotunda do Santos da Cunha e a rotunda do Meliã) ia ser resolvido com a variante sul, com a Avenida Padre Júlio Fragata, com a Avenida António Macedo e com o Nó de Infias. Agora prometem mesmo resolver com a Circular Externa. No Porto a circunvalação ia ser resolvida com a VCI – Via de Circular Interna, que ia ser resolvida com a CREP – Circular Regional Exterior do Porto, que agora vai ser resolvida com mais uma nova circular. A realidade é que todas as anteriores estão com mais trânsito.
O que sabemos é que a mobilidade induz-se. Braga, e o país, nunca resolverão o trânsito se continuarem a usar soluções que aumentam a dependência do automóvel. Quanto mais espaço damos ao automóvel, mais automóveis atraímos. Resolver trânsito apenas com infraestrutura automóvel é como tentar apagar fogo com gasolina.
Temos tido erros históricos com a justificação de um alegado aumento da fluidez do trânsito. Para isso acabamos a alargar vias, a criar túneis e viadutos, a retirar passadeiras, colocar pontes aéreas e escolher rotundas em vez de cruzamentos semaforizados. Tudo com a justificação de mais fluidez e mais capacidade automóvel.
A fluidez absoluta procura-se nas auto-estradas. As cidades, as localidades, não são autoestradas. A velocidade excessiva destrói segurança, mata pessoas, fere outras e afasta a população do espaço público. A velocidade excessiva mata o comércio e a vida urbana. As pessoas detestam estar numa esplanada com o barulho de carros a passar. As ruas e avenidas urbanas não devem funcionar como pistas de velocidade, mas sim como avenidas com vida, com crianças a brincar e a deslocar-se nelas.
Com as soluções do costume, as “auto-estradas” urbanas, até podemos sentir uma melhoria temporária, de alguns meses, mas rapidamente vamos acabar num congestionamento. Isto vai acontecer também com o Nó de Infias e com a Circular Externa (essencial para os pesados que querem ir ou sair dos parques industriais) que não contemplam opções para os modos ativos nem para o transporte público.
A falta de prioridade ao transporte público é uma escolha política que custa caro ao concelho. Dentro do concelho de Braga, sem vias BUS, sem infraestrutura dedicada, sem prioridade operacional e sem corredores ferroviários para ligar Braga aos concelhos vizinhos, torna-se impossível garantir frequência, fiabilidade e competitividade ao sistema. Estar dentro de um autocarro é não saber se vamos ou não chegar a horas, porque estamos no meio do trânsito que o Município nos oferece.
A opção política das últimas décadas, também esta de continuidade, tem sido retirar legibilidade ao transporte público, prejudicando-o. Com isto, toda a gente acaba empurrada para o uso do automóvel. Vamos ter mais automóveis e rapidamente voltamos ao congestionamento, às filas e a problemas de sinistralidade.
Com mais automóveis vamos precisar de mais estacionamento, teremos menos saúde, menos dinheiro, menos qualidade do espaço público e ficaremos cada vez mais dependentes do automóvel. E quando assim é, o trânsito deixa de ser escolha individual e passa a ser consequência política.
O problema de Braga não é as pessoas usarem o automóvel. É não terem alternativa. Se conseguirmos desenhar e atribuir, no espaço público, espaço para o transporte público, para as ciclovias e para bons passeios, então vamos ter menos dependência do uso do automóvel. Cada pessoa que usa o transporte público, anda a pé ou de bicicleta é menos um automovel no trânsito.
Braga continua a tentar resolver o congestionamento sem reduzir a dependência automóvel. Algo que não acontece em lado nenhum do Mundo. Continua a repetir há mais de uma década o mesmo modelo de mobilidade e as mesmas soluções para o trânsito. E os resultados estão à vista: Mais trânsito, mais congestionamento, mais stress. A revisão ao diagnóstico do PMUS - Plano de Mobilidade Urbana Sustentável de Braga, mostra isto mesmo, continuamos na mesma, dependentes do automóvel, com uma utilização excessiva nas deslocações urbanas e piores na mobilidade, tendo falhado todas as metas.
Um território eficiente não é aquele onde toda a gente anda de automóvel. É aquele onde nem toda a gente precisa de usar o automóvel para viver. Continuar a apostar apenas nas mesmas soluções rodoviárias produzirá inevitavelmente mais trânsito. Esta na altura de apostar noutras soluções.
A mobilidade induz-se.