Há poucos dias, uma pessoa minha amiga, considerava que estamos numa altura do ano habitualmente calma Muitas famílias em férias, os lugares de trabalho um pouco mais serenos, enfim, dir-se-ia que há uma sensação simultaneamente pacífica e transitória, já que o dia a dia normal de um cidadão sempre exige mais atenção aos requisitos profissionais, que são a fonte habitual da vida de todos nós.
No entanto, se as férias distendem e apaziguam as nossas preocupações habituais, a verdade é que o nosso sentido comum começa a pensar que esta situação é passageira e que, mais dia menos dia, as azáfamas do emprego e familiares vão crescer e tomar conta do nosso quotidiano de um modo inevitável.
Seja como for, é preciso saber descansar, não pondo de parte toda a azáfama dos afazeres profissionais que nos enchem o quotidiano. E se neles pensarmos, a verdade é que, com naturalidade, sabemos que nos ocupam, no seu período próprio, quase todo o nosso tempo anual. Mas em período de férias, como alguém comentava, não os pondo de parte de forma radical, com certeza que as suas exigências e determinações devem estar presentes, não como realidades que nos saturam e nos enfraquecem o repouso, mas como realidades que dão sentido à minha vida, contribuem para a minha sustentação pessoal e, como em tantos casos, também familiar.
O trabalho não é uma realidade negativa ou abusiva. Ele faz parte da nossa natureza, que se encontra no dia a dia dotado com aptidões próprias para o realizar, embora possa, por vezes, ser exigente e até importuno. Trata-se de uma realidade que se coaduna com as nossas capacidades naturais de transformar a realidade que nos cerca, tornando mais produtiva e aprazível à nossa própria existência.
Não é pensável a vida humana sem laboriosidade. Reparemos, por exemplo, que se uma sociedade não tem em conta o trabalho como elemento e via da possibilidade de se viver em conjunto com outros seres da nossa espécie, a desordem e a infecundidade daria lugar à lei do mais forte, e não à existência quotidiana pacífica, onde há uma divisão de responsabilidades e de contribuições resultantes dos efeitos da laboriosidade variada dos diversos seus membros.
Por esta razão, sob o ponto de vista cristão, o trabalho humano é uma realidade santificante e santificável, ou seja, deve perspectivar-se com uma visão positiva, certamente regida por legislação que eduque o ser humano a saber que pode melhorar a sua existência quotidiana, social e moral através das suas ocupações profissionais- Elas são queridas por Deus. Para tanto nos criou com as aptidões necessárias que, através do trabalho, possamos viver uns com os outros, produzindo o que é necessário para compartilharmos entre todos os frutos das nossas ocupações laborais. Como se diz no Génesis, o “Senhor tomou o homem e colocou-o no jardim do Eden para cultivá-lo e guardá-lo” (Gén.2, 16). Ou seja, compete ao ser humano, por vontade divina, trabalhar o mundo que o Criador pôs à sua disposição, dando-lhe todas as condições essenciais para viver, não de uma forma apática, mas exercitando com desvelo todas as capacidades laborais da sua natureza.