Iniciando o presente texto com leve tonalidade de humor, fizeram-me rir e reflectir há dias de como “continua este país”.
Que um sujeito passou à porta da Assembleia da República e que vindas de dentro, ouviu pronunciar em voz alta “fascista, palhaço, anormal, vigarista, incompetente, corrupto”, etc. etc. e que perguntou ao porteiro o que se passava dentro da Casa da Democracia. Que o porteiro lhe disse: “não se passa nada, só estão a fazer a chamada para ver se os deputados estão todos”.
Ora isto é humor, são formas de brincar com a política, são piadas que vão dando a perceber de que embora se brinque, a brincadeira contém uns pozinhos de verdade.
É certo que em qualquer país onde a democracia se pratica, onde a democracia é fiscalizada e se procura aperfeiçoar em benefício dos partidos políticos e só depois do povo, há exaltações, há excessos de zelo e por vezes até as cadeiras rolam pelo ar. Mas, em rigor, isso não é democracia e, em Portugal, tem havido incivilidade pura, violência verbal e total falta de respeito para com os votantes eleitores, principalmente a incivilidade testemunhada por deputados da extrema-direita que o povo tem de ouvir/aturar de há uns anos a esta parte na nossa Assembleia da República.
Ora o povo, não paga nem vota para ser desrespeitado, mas sim para ser representado.
Nós por cá – embora com o benefício do 25 do quatro há mais de 50 anos – continuamos a pedalar como que ao sabor dos ventos, sem firmes atitudes políticas e económicas, sem preocupações de progredir e com muitas dúvidas da seriedade e da competência de quem nos tem governado.
Frequentemente se afirma, que o país está melhor do que há 50 anos e isso é verdade. Que somos um grande povo, que sabemos para onde vamos, que já não há fome em Portugal, que temos tudo! Mas não é bem assim. Uma coisa pelo menos não temos tido: juízo e seriedade nos políticos para porem o país a funcionar sem corrupção.
Pedia e ensinava o ditador Salazar de que o país devia produzir e poupar. Havia corrupção no seu tempo? Talvez. Mas quando o professor Adriano Moreira o convidou a abrir as portas à democracia, respondeu-lhe: Cale-se! Pois se assim se fizesse eles comiam tudo. “Eles comiam tudo”, título de uma canção que serviu mais tarde a Zeca Afonso.
Na verdade, mesmo sem democracia antes de Abril de 1974 e sempre a poupar, Salazar tinha nos cofres do Estado 1.300 toneladas de ouro! Havia pobreza à vista, atraso económico e social, muito analfabetismo e gravíssimos problemas de saúde, como a tuberculose.
Mas com a corrupção actual, o oportunismo, a falta de escrúpulos, o enriquecimento dos xicos-espertos que passam e passaram pelos lugares da política, “Portugal tinha 382,66 toneladas de ouro em Julho de 2026 nos cofres do Estado e tem 390 toneladas depositadas em Londres”. E então que fizeram ás mais de 500 toneladas de ouro que faltam, a par da monstruosa dívida pública actual e que produziu o país para aumentar ao ouro que Salazar juntou, mais de 50 anos depois?
Qualquer português minimamente esclarecido e reflectindo sobre os políticos eleitos-a-governar, poucos são aqueles que cumpriram e que fizeram tudo pelo bem do país, do povo. Olhamos para trás e para o presente, vemos a cancerosa corrupção que ninguém trava, vemos arguidos-à-solta e todos ou praticamente todos acusados de falsificação de documentos, fraudes a diversas instituições, burlas classificadas, abuso de poder, branqueamento de capitais e até falsos licenciados temos tido sem que as respectivas Ordens os detectem.
Não é inverdade dizer-se que o crime tem aumentado em Portugal. Basta estar-se atento às notícias diárias. Crimes de toda a ordem. Violências físicas, mortes programadas, esfaqueamentos a qualquer hora do dia e da noite e é verídico que pelas ruas das cidades só caminha à noite quem é tolo.
O crime organiza-se, os criminosos abundam e têm vários padrinhos como se sabe: a guerra que vivemos é fruto de criminosos e a perda de vida dos homens tornou-se o pão nosso de cada dia.
Mas o povo continua a esperar, a viver de esperança, mas a pobreza insiste em vaguear pelas ruas da cidade, pelas empresas pouco limpas, pela incerteza de uma vida normal do dia seguinte, pela justiça social e pelo descalabro existente entre ordenados vergonhosos e o riquismo que se vai respirando. Tudo tem caminhado para os mesmos bolsos: dos oportunistas e com a existência de uma Justiça que caminha como a tartaruga ou que não tem Leis para aplicar.
Humor e negativas realidades – isto, é Portugal.
(O autor não segue o acordo ortográfico de 1990)