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Por Entre Linhas e Ideias

Será que crescer é aprender a viver longe daqueles que sempre estiveram perto? Caros leitores, o verão começa a despedir-se, os dias de sol vão mingando, a chuva regressa e aproxima-se o tempo das vindimas, esse momento em que se colhe o que amadureceu e se prepara um novo ciclo. Talvez por isso o setembro que se aproxima seja também um tempo de mudança para milhares de jovens que deixam a casa dos pais e partem para a universidade com expectativas, receios e a esperança de uma nova etapa.

E, meus amigos leitores, para muitos começa também uma liberdade diferente, porque chegam a uma cidade que terão de conhecer, encontram novos colegas e novas rotinas. Aprendem a organizar o tempo, a gerir o dinheiro e a tomar decisões antes partilhadas com os pais, enquanto estes fazem contas às propinas, rendas, transportes e alimentação, com o atual custo de vida.

Há também expectativas. Há pais que sonham ver os filhos engenheiros, médicos, professores, investigadores ou noutras profissões, acreditando que a universidade lhes dará uma vida mais segura. Contudo, a vida raramente segue os planos que fazemos e a universidade pode conduzir a uma profissão, mas também abrir portas e despertar interesses. O diploma é importante, mas não é a única forma de singrar na vida.

A mitologia grega traz-nos a figura de Telémaco, filho de Ulisses, que deixa Ítaca e parte à procura de notícias do pai. Nessa viagem, o caminho obriga-o a crescer e a descobrir quem é. Talvez muitos dos jovens que agora partem vivam uma viagem de Telémaco, saindo à procura de um curso e de um futuro, mas descobrindo também quem são.

Quero partilhar convosco uma memória pessoal. Quando cheguei a Braga para estudar na Universidade Católica, encontrei uma cidade nova e a incerteza de qualquer começo. Porém, quando os professores e a instituição sabem receber os novos alunos, o que poderia ser rutura transforma-se em integração. Foi assim comigo e senti que entrava numa nova família, percebendo que a universidade não era apenas um lugar de estudo, mas também um espaço de crescimento.

Aristóteles, um dos filósofos mais intemporais, inicia a Metafísica afirmando que “todos os homens desejam, por natureza, saber”, ideia que importa recuperar num tempo em que o conhecimento parece competir com o imediato, o breve e o superficial. Vivemos numa época em que uma qualquer idiotice nas redes sociais chega a milhões de pessoas, enquanto alguém passa anos a estudar, investigar e procurar compreender melhor o mundo, permanecendo quase invisível.

Não quero, caros leitores, criticar o entretenimento, porque também precisamos de humor, mas preocupa-me uma sociedade que confunde visibilidade com valor e popularidade com conhecimento. Hoje, um diploma já não garante estabilidade, mas o saber oferece algo que nenhuma moda substitui, a capacidade de pensar, aprofundar e compreender.

O filósofo pré-socrático Heraclito lembrava-nos que tudo está em mudança e também estes jovens se transformarão com os caminhos que percorrem. Alguns regressarão às suas terras, outros ficarão nas cidades onde estudaram, alguns descobrirão novas vocações e haverá quem encontre fora da universidade a atividade em que se realiza. Tal como nas vindimas, também a vida tem o seu tempo de amadurecer, colher o que foi construído e abrir espaço a uma nova etapa.

E assim, enquanto o verão se despede e o novo ano académico se aproxima, milhares de famílias iniciam também um novo ciclo. Aos pais ficará, por vezes, uma casa mais vazia e uma despesa maior, enquanto aos filhos se abrirá um mundo mais vasto, mas a todos deveria acompanhar a certeza de que o conhecimento é uma das formas mais profundas de crescimento e liberdade.

Por hoje, meus amigos leitores, fica esta nossa afirmação. Até para a semana.


 

“Há partidas que mudam a nossa morada, mas é o conhecimento que muda a forma como passamos a habitar o mundo.”

Eugénio Oliveira

Eugénio Oliveira

26 agosto 2026