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Chamem-lhe autoconhecimento operacional

Ia começar com a expressão que os nossos avós usavam para quem se atrapalhava na ordem das coisas. Começar a casa pelo telhado. Lembrei-me dela ao ler um estudo europeu sobre o estado digital das empresas. Depois pensei melhor e achei-a injusta, porque não é isso que se passa nas empresas portuguesas.

O relatório chama-se Tech Reality Check 2026, é do grupo europeu Conclusion, e compara Portugal com a Alemanha, a Espanha e os Países Baixos. Ouviu 1.058 decisores de médias e grandes organizações, 79 deles em Portugal, pelo que os nossos números são indicativos. A primeira notícia é boa, das melhores que li este ano sobre Portugal. 59% das organizações portuguesas afirmam já ter alcançado reduções de custos e ganhos de eficiência com Inteligência Artificial, a percentagem mais elevada dos quatro países. E 56% identificam melhorias no serviço prestado a clientes ou a cidadãos, também o valor mais alto da tabela.

Vale a pena saborear isto, e não acontece muitas vezes. Estamos à frente da Alemanha porque fomos mais rápidos a pegar na tecnologia que já existe e a pô-la a render. É a nossa velha capacidade de desenrascar, agora aplicada a coisas sérias. Excelente! No bom caminho!!

A segunda metade do relatório é menos confortável. 47% dizem ter uma visão completa dos custos tecnológicos, o que nos coloca na média europeia mas longe dos 71% da Alemanha. Pior, só 46% conhecem as dependências críticas da sua infraestrutura, o valor mais baixo dos quatro países. E somos o que menos pondera os riscos ligados às diferentes jurisdições, com 32%.

O estudo resume Portugal numa frase. Adoção rápida, base fraca.

Onde ganhamos e porque não é desmazelo

A Alemanha está mais madura no governo da tecnologia e a Espanha na estratégia de dados. Nós ganhamos na prática. 51% escolhem os investimentos pelo desempenho técnico e 46% pelo impacto no negócio, ambos acima dos outros mercados.

Ninguém faz uma casa sem projeto, e muito menos a começa pelo telhado. O que se passa é outra coisa. Em muitas indústrias, a pressão sobre a produtividade deixou de ser apenas uma questão de margem e passou a ser uma questão de sustentabilidade do negócio. Quando a água chega ao pescoço, não se encomenda um estudo. Responde-se ao que é urgente e prioritário.

E responder liberta. Uma equipa afogada em tarefas repetitivas, que passa a recuperar horas por semana, ganha aquilo que não tinha, capacidade para pensar. É essa capacidade recuperada que permite, na fase seguinte, unir os pontos e estruturar o que ficou por estruturar.

E não sou só eu a dizê-lo. O próprio relatório sublinha que os resultados portugueses são notáveis para um país que fica atrás na maturidade digital, e conclui que a adoção prática de IA não exige necessariamente uma base digital sólida.

Por isso não critico a sequência. Critico é parar por ali.

O passo que falta

Falamos muito de inteligência artificial e de inteligência de negócio. Falta-nos falar de autoconhecimento operacional, que é saber como a casa funciona por dentro. O que temos, quanto custa ao certo, de que dependemos, quem responde quando falha e como as peças encaixam umas nas outras.

E encaixam em cinco dimensões que têm de andar juntas, não em cinco projetos separados. Os processos, porque automatizar um processo mau só o torna mais rápido a errar. Os dados, porque sem informação fiável nenhum modelo entrega o que promete. As pessoas, porque a melhor solução sem formação não rende. As ferramentas, porque cada aplicação isolada acrescenta custo e um sítio onde a informação se perde. E a conformidade, porque atropelar um regulamento é um problema adiado.

O risco nunca foi começarmos pelo urgente, é o urgente tornar-se cultura. E um número do estudo devia preocupar-nos. 60% dos inquiridos portugueses concordam que os sistemas críticos da sua organização assentam em tecnologia que só um punhado de pessoas percebe. Em Espanha, a maioria diz o contrário. Não é um problema técnico, é de quem sabe o quê.

Outro dado. 62% apontam o RGPD como principal barreira à partilha de dados, o valor mais alto dos quatro, e o estudo nota que é sobretudo a incerteza jurídica que trava o primeiro passo. Só que a lei é a mesma em toda a União. Não é a lei que nos trava, é o desconhecimento dela. E se isto se passa nas médias e grandes empresas, num país onde quase tudo é micro e pequeno o problema será maior.

A boa notícia é que esta segunda fase é a mais barata de todas. Não exige nova tecnologia nem novos orçamentos. Exige alguém que se sente uma tarde a fazer a lista e a mantenha viva.

Fomos rápidos e isso tem enorme mérito. Fomos práticos e isso é a nossa marca. Resta-nos ligar as pontas, e é isso que vai definir quem continua de pé daqui a cinco anos.

A urgência deu-nos tempo. Seria pena gastá-lo agora a correr!

Guilherme Teixeira

Guilherme Teixeira

19 agosto 2026