O Tâmega e Sousa (TeS) desafia as categorias convencionais de ordenamento territorial. A formulação "Minha Estrada, Minha Rua", inspirada em A Rua da Estrada, de Álvaro Domingues, ajuda a compreender a singularidade deste pedaço do Noroeste português.
É uma Comunidade Intermunicipal (CIM) de charneira entre a Área Metropolitana do Porto (AMP), o Minho e o interior duriense, transmontano e barrosão. De matriz urbano-rural e industrial, é densamente povoada e fortemente enraizada na família, no trabalho, no património e na paisagem verde desenhada pelos rios Tâmega, Sousa e Douro.
Aqui, a urbanização não se organiza em torno de centros claramente delimitados. Desenvolve-se ao longo das estradas, numa sucessão de casas, oficinas, fábricas, cafés, serviços e pequenas explorações agrícolas que se entrelaçam quase sem interrupção. O tecido social assenta também numa tradição de indústria transformadora de base familiar: o mobiliário, a madeira e os seus derivados, em Paços de Ferreira; o vestuário e o calçado, em Felgueiras; a indústria da pedra, em Marco de Canaveses; e a metalomecânica e a construção civil, disseminadas por todos os concelhos. São milhares de pequenas e médias empresas que marcam um certo pulsar económico e social. O turismo emerge igualmente como setor em expansão, vertebrado pelo rio Douro, com as colinas outrora mineiras de Castelo de Paiva a funcionarem como uma das portas deste território.
Durante gerações, esta dinâmica coexistiu com a pequena propriedade agrícola. A agricultura complementava o rendimento proveniente da fábrica, da oficina ou do comércio. Mais do que uma necessidade económica, esta diversificação era uma forma de resiliência que fez do empreendedorismo e da capacidade de adaptação marcas identitárias. Hoje, destaca-se a produção de Vinho Verde, presente de Celorico de Basto a Cinfães. As vinhas, os socalcos e o mosaico agroflorestal contribuem para uma paisagem cultural talhada por séculos de interação entre o trabalho humano e uma natureza dura, mas generosa.
O TeS também se exprime no património românico, nas festas e romarias, na tradição católica, na gastronomia, onde o capão e o anho são referências emblemáticas, e nos saberes artesanais ligados à madeira, à pedra e ao linho. São elementos vivos e fatores de coesão social num território com forte sentido de pertença.
É uma identidade ancorada na afirmação do Condado Portucalense e na ulterior emergência do reino de Portugal. Entre os séculos IX e XII, o vale do Douro assumiu um papel central numa fronteira oscilante entre cristãos e muçulmanos. Esse processo consolidou-se com a presúria do Porto por Vímara Peres, em 868, e com os avanços subsequentes, incluindo a primeira reconquista cristã de Coimbra em 878. É nesse contexto que as terras correspondentes ao atual TeS ganham importância estratégica, favorecendo a instalação ou expansão de cenóbios e ordens religiosas, bem como de um dos principais reservatórios de poder senhorial e militar dos primórdios da nacionalidade. Influentes linhagens, como os Ribadouro, os Sousa e os Baião, integravam o núcleo aristocrático que apoiou o Conde D. Henrique e, posteriormente, D. Afonso Henriques. A partir dos seus domínios nestas terras, Egas Moniz teve papel decisivo na educação do fundador de Portugal, num percurso que combina registos documentais e tradição lendária, posteriormente associada ao Mosteiro de Santa Maria de Cárquere, em Resende.
A Rota do Românico é hoje um dos mais notáveis testemunhos desse legado. Mosteiros como o de Paço de Sousa, em Penafiel, onde está sepultado Egas Moniz; o de Pombeiro, em Felgueiras, ligado à nobreza dos Sousas; ou Santo André de Ancede, em Baião, um dos principais centros religiosos e económicos do vale do Douro medieval, permitem percecionar a importância destas comunidades monásticas e das famílias referidas. Mais do que um produto turístico, esta Rota é uma notável narrativa da formação histórica da Região Norte. O Centro de Interpretação do Românico, em Lousada, constitui um importante instrumento de divulgação dessa ligação profunda entre património e identidade territorial.
Não será alheio a esse legado o aparecimento de vultos contemporâneos da cultura portuguesa como Teixeira de Pascoaes, Amadeo de Souza-Cardoso ou Agustina Bessa-Luís, cuja presença se faz sentir de forma particularmente intensa em Amarante.
Contudo, a riqueza histórico-cultural contrasta com alguns indicadores socioeconómicos e com uma emigração que persiste em levar muitos jovens qualificados a procurar oportunidades noutros locais. Apesar da vitalidade empresarial, o TeS continua entre as CIM do Continente com menores níveis de rendimento por habitante. As razões são múltiplas. Entre elas está a excessiva atomização e o reduzido valor acrescentado de parte significativa do tecido empresarial, que processos recentes de concentração, inovação, design e atração de investimento externo tentam alterar. Estão também as insuficiências históricas ao nível das acessibilidades rodoviárias e ferroviárias, apesar da proximidade da AMP, atenuadas pelos investimentos das últimas duas décadas. Acresce o enquadramento inadequado de políticas públicas e instrumentos de financiamento, cujas categorias dicotómicas urbano/rural dificilmente captam esta realidade.
Mas o fator mais penalizador continua a ser a reduzida presença de ensino superior público e de estruturas de desenvolvimento tecnológico capazes de gerar conhecimento, inovação e retenção de talento.
Assim, as próximas décadas deverão transformar ativos que a história consolidou num desenvolvimento mais ambicioso. Isso exige valorizar a estrutura empresarial, reforçar a qualificação das pessoas, afirmar internacionalmente os seus produtos e reconhecer, finalmente, a especificidade da sua matriz urbano-rural. Exige também melhor articulação no contexto do Noroeste industrial, em particular com a AMP e o Ave.
Este território de contrastes recusa resolver-se em simplificações: nem cidade nem campo, mas antes essa "estrada-rua" onde se cruzam fábrica e capela, romaria e polo industrial, memória medieval e ambição empresarial. É precisamente dessa aparente contradição que retira a sua maior força. Afinal, ser daqui é saber que entre a estrada e a rua nunca houve uma fronteira. Houve sempre uma mesma forma de viver, trabalhar e habitar o território.
