Afinal, quem são os loucos? Caros leitores, no passado dia 12 de agosto levantámos os olhos para o céu por causa do eclipse. E pensei em como um grego antigo teria vivido aquele momento, quando o céu subitamente escurecia. Antes das explicações científicas, estes fenómenos despertavam medo, espanto e curiosidade. Foi desse espanto que me surgiu o tema desta crónica, a loucura e a facilidade com que a reconhecemos nos outros sem a vermos à nossa volta.
Todos já ouvimos dizer de alguém que “é maluco”, que “perdeu o juízo” ou que tem “um parafuso a menos”. Dizemo-lo quando alguém arrisca, ama sem medida, muda de vida ou toma uma decisão inesperada. Mas há também uma loucura mais filosófica, quando alguém põe em causa o que todos aceitam como normal.
No século XVI, Erasmo de Roterdão percebeu esta ambiguidade em Elogio da Loucura. Deu voz à própria Loucura, que observa os homens e se ri das suas vaidades e certezas. Muitas vezes, o que chamamos sensatez não passa de um hábito que ninguém questiona.
Séculos depois, Michel Foucault estudou como cada época traçou a fronteira entre razão e loucura. Quando afirma que “a loucura só existe numa sociedade”, lembra-nos que o normal depende de regras, costumes e poder. E aí, meus amigos, quem decide o que é normal? A maioria? A moral? O poder? Ou aquela vizinha que sabe sempre quem entra e quem sai?
Quero dar-vos um exemplo, a Alegoria da Caverna, de Platão, de que os meus alunos gostam muito. Um prisioneiro liberta-se, sai da caverna e descobre a realidade. Quando regressa, encontra os outros presos às sombras e, ao contar o que viu, é ele que parece estranho. Quase ouço um aluno perguntar “Professor, então quem viu a realidade é que parece louco?” É aqui que a Filosofia nos obriga a pensar.
Talvez por isso encontre pequenas loucuras todos os dias. O preço dos combustíveis sobe e fazemos contas antes de abastecer, as embalagens encolhem enquanto o preço aumenta, trabalhamos para viver melhor mas chegamos ao fim do dia sem tempo para viver e damos três voltas de carro para estacionar à porta só para não caminharmos cinco minutos. Confesso-vos que já o fiz. Há uma boa dose de absurdo nestas loucuras que, repetidas, acabam por parecer normais.
E, já agora, lembram-se de Scolari e da célebre pergunta “E o burro sou eu?” Talvez pudéssemos trocar uma palavra e perguntar “E o louco sou eu?” Afinal, Scolari perguntava, à sua maneira, como podia ser ele o errado quando os resultados pareciam dar-lhe razão.
E depois há Dom Quixote, um dos grandes “loucos” da literatura. Diante dos moinhos de vento, o cavaleiro de Cervantes via gigantes, enquanto Sancho lhe dizia que eram apenas moinhos. Sorrimos da sua loucura, mas a imagem continua atual. Há momentos em que fazemos gigantes de pequenos problemas e outros em que nos habituamos tanto aos grandes que quase deixamos de os ver.
E porque não trazer uma personagem do teatro universal? Em Hamlet, Shakespeare mostra-nos como a loucura pode esconder lucidez. O príncipe assume uma aparente loucura enquanto procura a verdade sobre a morte do pai e diz aquilo que muitos preferiam não ouvir, revelando a corrupção que o rodeia. Por isso, Polónio reconhece “Embora isto seja loucura, há método nela.” Nem sempre quem parece ter perdido o juízo vê pior a realidade.
Vieram-me ainda à memória os Ala dos Namorados e a sua música Loucos de Lisboa. Todas as cidades têm os seus loucos. Uns perseguem sonhos, outros falam sozinhos, alguns escrevem livros e há ainda os que fazem discursos muito sérios. Quanto a estes, cada leitor fará a sua leitura.
Por hoje, meus amigos leitores, deixo-vos mais uma afirmação como mote para um diálogo que pode continuar.
“A verdadeira loucura talvez comece quando deixamos de estranhar aquilo que nunca deveria ter-se tornado normal.”