Estamos numa altura do ano em que a nossa sociedade laboral como que se encontra repartida em duas classes: a que já foi de férias e a que aguarda ansiosamente o momento de as poder começar.
Certamente que eu e o leitor desejamos a toda gente um bom tempo de descanso, quer tenha ele já sido vivido, quer se encontre na situação de o começar dentro de pouco tempo. Mais ainda: desejamos aos que no presente estão em situação ferial, que tudo lhes corra da melhor maneira.
Seja qual for a situação, como boas pessoas que somos, só desejamos que todos vivam o seu dia a dia da melhor maneira, tanto mais que, por vezes, os tempos dos nossos descansos podem não ser – como é óbvio, involuntariamente – muito pacíficos e regeneradores das nossas vidas.
Recordo, com pena, a situação de um grande amigo que, quando chegou o dia tão desejado, não há muito tempo, se viu impossibilitado de seguir o seu desejo e trajecto de descanso, que aliás procurara prepará-lo com todo o cuidado, porque foi apanhado por uma gripe esquisita, que o obrigou a ficar na cama, transtornando por completo tudo o que tinha planeado para si e para toda a família. Aliás, se foi ele o primeiro a ter de ficar acamado, no dia seguinte dois dos seus filhos apareceram com febres implacáveis e com a mesma sintomatologia paterna. “Foi tudo por água abaixo”, comentava-me há dias.
Lamentei profundamente a situação, mas ele, com a sua bonomia habitual, observou: “Seja o que for que nos acontece tem a sua importância e significado. Quando tive de me meter na cama, fiquei furioso e desanimado, porque todo o meu projecto de repouso foi por “água abaixo”, como costuma dizer-se. Senti-me frustrado e dizia comigo mesmo: “Não é justo. Quando se prepara bem uma coisa, uma gripe dá cabo de todas as nossas ambições. Não faz sentido, é uma injustiça...”
Quem teve de suportar mais as consequências da situação foi a sua esposa, também desejosa de poder mudar de ambiente e viver duas semanas mais calmas, na companhia serena e bem disposta de toda a família que criara com o marido. Como tinha dado férias à única empregada caseira, que saiu rumo à sua terra na véspera do aparecimento das referidas gripes, obrigou a mãe de família a um esforço de trabalho redobrado, já que tinha de ser a cozinheira da casa e a enfermeira dos que foram obrigados a meter-se na cama para atenuar o mau estar que a febre gripal deierminava.
Foram vários dias para ela de trabalho redobrado e de preocupação constante para que tudo, dentro do que era possível, corresse no seu lar da melhor forma. Efectivamente, uma semana depois do início das diversas sintomatologias gripais, a sua família como que voltou à normalidade. Curiosamente, nem o seu marido nem os seus filhos que foram também vistos por um médico amigo, repararam em todo o seu esforço por atenuar aquela crise gripal, que obrigou a família a desistir das férias nos moldes previstos que tanto ambicionavam. Efectivamente, o esforço calado e generoso daquela esposa e mãe durante os dias febris que viveram, foram para eles algo que acharam natural e normal. Ela sempre se comportava daquele modo. Não era estranho. Era como ela sempre fora.
No entanto, logo que o marido pôde levantar-se e os seus dois filhos melhoraram, uma notícia os sobressaltou. Afinal, não ter saído de casa, apesar das lamentações que tanto apareciam, fora uma boa solução, porque o lugar que cobiçavam para descansar, tinha sido completamente destruído por um destes incêndios estivais que não perdoam. O pai e os filhos ficaram boquiabertos ao lerem a notícia. E, pouco a pouco, recordando, já mais conscientes, o esforço maternal denodado de que se apercebiam agora com profundo reconhecimento, decidiram, por absoluta unanimidade, organizar um passeio durante alguns dias, preparando tudo à socapa daquela que, pelo seu zelo tão transparente e oportuno, tinha transformado a doença, numa espécie de exemplo claro do que é o verdadeiro amor. E este sempre deve ser recompansado.