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Minho: Por uma Área Metropolitana com dimensão Europeia

A recente decisão de Braga e Guimarães assumirem a liderança do processo de criação da Área Metropolitana do Minho merece o nosso reconhecimento político. Pois governar não é apenas administrar o presente. É preparar o futuro antes de ele se impor. E poucas vezes essa diferença foi tão evidente. O Minho já deixou de caber nos limites dos mapas administrativos. As pessoas vivem um território que a administração continua a dividir. 

Trabalha-se em Braga, estuda-se em Guimarães, investe-se em Vila Nova de Famalicão, produz-se em Barcelos, exporta-se por Viana do Castelo. O quotidiano aboliu fronteiras que a política insiste em preservar. A economia já descobriu a escala certa. A sociedade também. O Estado continua atrasado. Foi esta evidência que levou João Rodrigues e Ricardo Araújo a proclamar o "dia um" da Área Metropolitana do Minho e a defender a passagem "dos estudos aos passos concretos". 

Esta expressão resume um dos maiores bloqueios nacionais. Portugal habituou-se a estudar tudo, que é muito importante, mas continua a decidir pouco. Multiplicam-se relatórios, sucedem-se diagnósticos, acumulam-se consensos. Falta quase sempre o momento da decisão. Desta vez, alguém decidiu começar. Mas começar não basta. É preciso começar bem. A futura Área Metropolitana não pode nascer como uma simples soma de competências ou como um exercício de geometria administrativa. 

Não pode limitar-se aos municípios de maior contiguidade urbana, ignorando o território que lhes dá profundidade económica, social e cultural. O Minho forma um sistema territorial que integra cidades, vilas e espaço rural, indústria e agricultura, universidades e empresas, património e inovação. É essa diversidade, que lhe confere identidade e competitividade. Excluí-la seria amputar o próprio projeto, tal como aconteceu nos primeiros ensaios. 

Devendo afirmar-se como um espaço estratégico que integra 24 municípios, respeitando a autonomia de cada um, para criar um lugar comum de decisão. Um lugar onde municípios, Comunidades Intermunicipais, Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional, Estado, universidades, empresas e sociedade civil possam construir políticas em conjunto. Não para concentrar poder, mas para ganhar escala e dimensão europeia. 

A Política de Coesão já não recompensa apenas quem apresenta obras. Valoriza quem apresenta visão. Já não financia apenas infraestruturas; exige capacidade institucional, governação integrada e estratégias capazes de gerar impacto económico, social e ambiental. A escala deixou de ser um atributo geográfico para passar a ser uma condição política. Está subjacente ao debate em Bruxelas sobre o futuro da Política de Coesão no âmbito do Quadro Financeiro Plurianual 2028-2034. A Comissão Europeia pretende concentrar recursos em prioridades como a competitividade, as transições digital e energética, a segurança e a reconstrução da Ucrânia, reforçando a coordenação através dos novos Planos Nacionais e Regionais de Parceria. 

Portugal conhece bem o efeito transformador dos fundos europeus. Estradas, escolas, hospitais, centros tecnológicos e equipamentos públicos mudaram o país. Mas quatro décadas de integração ensinaram outra lição: investir não basta. O desenvolvimento depende cada vez mais da qualidade das instituições, da capacidade de cooperação e da inteligência com que os territórios transformam recursos em inovação, produtividade e emprego qualificado. 

Sendo um dos territórios mais dinâmicos do país, continua institucionalmente fragmentado entre as Comunidades Intermunicipais do Cávado, do Ave e do Alto Minho. Coopera sem uma estratégia comum. Planeia sem verdadeira integração. Divide aquilo que a economia já uniu. Compete quando deveria ganhar dimensão. O problema nunca foi falta de vitalidade. Tem sido falta de escala política. 

É por isso que a Área Metropolitana do Minho faz sentido. Não para substituir as Comunidades Intermunicipais nem para acrescentar mais um nível de burocracia, mas para lhes oferecer um espaço permanente de articulação estratégica. Um espaço onde o Quadrilátero Urbano possa evoluir naturalmente para um Pentágono Urbano, integrando Viana do Castelo como plataforma atlântica e consolidando a ligação ao Alto Minho e à Galiza. 

Poucas regiões portuguesas reúnem uma combinação tão favorável. Mais de um milhão de habitantes. Uma das maiores concentrações industriais do país. Universidades de excelência. Centros de investigação reconhecidos internacionalmente. Empresas exportadoras. Conhecimento científico. Capacidade empreendedora. O Minho possui quase tudo o que a Europa procura nos territórios capazes de competir à escala global. 

Falta-lhe apenas agir como aquilo que já é. Seria, contudo, um erro transformar este projeto numa disputa com a Área Metropolitana do Porto. Um Minho mais organizado não enfraquece o Porto; reforça o Norte. Cria um segundo grande polo metropolitano, complementa a centralidade portuense e aumenta a capacidade de cooperação com a Galiza, consolidando uma Eurorregião que constitui um dos exemplos mais consistentes de integração territorial na União Europeia. 

O geografo Andrés Rodríguez-Pose (2018) defendeu que o euroceticismo nasce menos da falta de financiamento do que da persistência daquilo a que chamou a "geografia do descontentamento". Quando as pessoas e, muito particularmente, os jovens deixam de encontrar oportunidades e os territórios deixam de acreditar no futuro, não é apenas a economia que perde. É a própria democracia que se torna mais vulnerável. Um debate ultrapassa largamente a questão de reorganização administrativa. Estando em causa saber se o Minho continuará a ser um conjunto de parcelas, ou se terá finalmente a coragem de se assumir o seu estatuto metropolitano. 

A Área Metropolitana do Minho já existe nas empresas, nas universidades, nas deslocações diárias, nas cadeias de valor, na cultura, nas relações económicas e sociais. Falta apenas que exista também na vontade política. Talvez tenha chegado o momento de o Minho deixar de administrar as suas fronteiras, e começar a governar e a liderar o seu destino. 

Manuel Barros

Manuel Barros

7 agosto 2026