O que significa esta expressão – ‘a juízo pastoral’ – na configuração das questões práticas que envolvem a decisão e o discernimento sobre o modo de fazer na relação com as pessoas? Será que este ‘a juízo pastoral’ implica algo mais do que realizar o que era habitual ou implica que, entre as diversas soluções, há que escolher a mais correta (em bom senso e para melhores frutos), mesmo que possa não ser a mais bem aceite? Não será que ‘a juízo pastoral’ é mais exigente do que reproduzir o ‘já feito’ ou no seguimento da tradição ou costume? Como se pode ou deve conciliar este ‘a juízo pastoral’ com a Tradição e a inovação criativa?
1. Embora este tema possa parecer mais de índole eclesiástica, ele insere-se numa visão eclesial mais abrangente e até mais exigente no conteúdo e na forma. Com efeito, diante de tantas situações novas e, por vezes, complexas temos de ter critérios claros, concisos e objetivos, por forma a não perdermos a hierarquia das questões, a prioridade das decisões e, particularmente, o sentido cristão dos problemas, quando estes podem surgir.
2. Para abordar esta temática necessito de fazer um ponto prévio de ordem: durante vinte e sete anos (de 1997 a 2024) estive em Setúbal e regressei a Braga há apenas dois anos. Sobre os assuntos em abordagem faço – mental e pastoralmente – uma comparação, nalguns casos sem grandes diferenças. Os campos de presença e de atividade em análise são: ‘sacramentos sociais’ (batizados, casamentos e funerais; festas e manifestações religiosas ou afins (celebrações da catequese); prática dominical (regular ou ocasional), iniciativas de evangelização e/ou tradições…
3. Nos anos vividos em Setúbal tive como bispos os quatro primeiros da diocese. Ao nível pessoal passei por duas paróquias distintas na geografia e nas pessoas, dentro e fora da Igreja.
Por lá ainda havia batizados, poucos casamentos e bastantes funerais, estes quase nunca com missa (terei tido missa, tanto numa como noutra paróquia, em menos de vinte casos), bem como os casamentos e batizados não tinham associados a missa. Notava-se uma manifesta impreparação para estar no espaço da igreja, sendo recorrente apelar – nos momentos de batizado e de casamento – a que já estavam no espaço de celebração, dando condições mínimas para tais momentos de celebração da fé.
Por cá – numa diocese de prática religiosa mais volumosa para já – as condições são idênticas, tanto no ambiente quanto na participação: boa parte dos participantes quedam-se sem responderem aos passos celebrativos mínimos. Será que só me têm tocado exceções? Nem os livrinhos de apoio suprem as lacunas.
4. Caiu a quantidade e, dramaticamente, a qualidade. Mais do que mera constatação precisamos, com urgência, de refletir sobre o modo de solução. No entanto, não será na aposta – ainda com sabor a cristandade – em criar exigências sobre padrinhos, no caso do batismo, na promoção de cursos de preparação de casamento (mesmo que se diga de ‘matrimónio’) ou no prolongamento dos anos em ordem à receção do crisma (se bem que este já foi recebido no batismo, dever-se-ia arranjar outra designação que não dizer ‘confirmação’) tempos depois outros sacramentos da iniciação. O processo galopante de descristianização está em curso. Mais do que o diagnóstico precisamos de encontrar respostas com solução, partindo do pressuposto de não podemos presumir que as pessoas sabem, pois não conhecem de verdade. Apostar na evangelização em vez de continuar a alimentar a sacramentalização rotineira, mas como?
5. Festas (com a designação) religiosas precisam de ser revistas, tanto na forma de serem programadas como na execução, desde a preparação (novena, tríduo) até aos atos que envolvem a dimensão (dita) católica. É preciso não deixar que estas manifestações religiosas resvalem para desfiles quase-etnográficos, procurando explicar a biografia dos santos levados em procissão, dignificar a Palavra de Deus mais do que os foguetes, aferir os horários desses serviços em vez de privilegiar o tempo dos cançonetistas... enquanto ainda há quem contribua para estas festas. Como sempre os exageros pagam-se caros!