Na semana passada não foram suficientes os quatro mil caracteres da crónica para dizer o que tinha para dizer. Na verdade, seriam precisas muitas páginas para esmiuçar o assunto e apresentar as necessárias evidências, mas também não é esse o meu escopo. Quero apenas discernir um pouco mais sobre o significado da parábola transmitida pelo evangelista Mateus.
Não raro, escutamos comentários do género dos que menciono a seguir que ouvi entre amigos há umas duas semanas enquanto me deslocava de casa para o centro da cidade em transporte público. O homem sentado mais longe da vidraça direita do pesado de passageiros foi quem puxou a conversa.
- Fulano tinha X milhares de euros de património antes de iniciar o mandato, agora, passados uns poucos de meses, já ascende a Y milhões [o nome e os valores foram ditos alto e bom som, de tal forma que eram audíveis duas filas atrás].
- Não é o único, mas quem anda nesses meandros ganha bem, se calhar, somando todos os ordenados...e os da mulher!…
- Vê-se bem que és pouco dotado em matemática. Nem que estivesse meia vida ou até a vida inteira no cargo daria para juntar tanto!…
- Pode ter ganho na lotaria ou no euromilhões, pode ter herdado!…
- Só a nós é que não nos sai a taluda, nem conseguimos herdar nada que se veja!...Não achas coincidência em excesso acontecer tais coisas aos mesmos?…
Às vezes, muitas vezes, generaliza-se o que não está certo. Há certamente trigo limpo na seara que não se mistura nem corrompe. Mas, nada como uma boa esfregadela para separar o que é bom do que não é, tal como escutara a propósito da parábola de há dois Domingos atrás. Acredito que a maior parte do que se planta na seara seja para dar bom grão e que só uma ínfima parte de joio, muito disfarçadamente, vá junto. O agricultor experiente e consciente escrutina com responsabilidade as sementes que lança para ter bom fruto na altura da colheita. Tal não significa que não se engane e não leve a mão à cabeça como sinal de arrependimento se se distrai durante a selecção das sementes. Tarde demais. O estrago está feito e, pior, o joio que ficou no terreno vai contaminar as sementeiras seguintes. Se não tiver um cuidado especial no futuro vai pôr em causa as melhores germinações, não apenas no seu terreno, mas também nos dos vizinhos. A erva daninha reproduz-se com muita facilidade, mais do que aquela que dá bom fruto.
Na vida de cidadania e da política, que se cruzam, pode acontecer, acontece na verdade, algo de muito semelhante. Políticos que não se explicam, que sonegam informações, que retardam a apresentação de provas em sua defesa contribuem decididamente para a contaminação da sementeira. Aconteceu com Montenegro, está a acontecer com o ministro da Administração Interna e, infelizmente, aconteceu com vários outros antes deles. Será que não estão todos a prejudicar a democracia e a contribuir para a incredibilidade do regime?
Cumpre aos cidadãos a mesma responsabilidade e as mesmas diligências do agricultor que se preocupa, mas sem perder a paciência com o que vai acontecendo. A comunicação social, que tem cumprido a sua missão, vai pondo a nu situações que fogem à legalidade, à normalidade, e que ajudam o cidadão a decidir em que sementes não deve apostar na sementeira seguinte. Mas só no fim, próximo da colheita, com escuta e ponderação, o cidadão tomará a sua decisão escrutinadora. Ainda que se peça isto e aquilo, este ainda não é o tempo para utilizar a foice ou o machado. Chegará o momento, que a lei fundamental tem determinado, para utilizar os meios de eliminação do que não serve e colocar no terreno plantas novas e sadias, limpas de míldio, de cochonilha e não incorporem qualquer vestígio de sementes de joio. Tal não significa, em certas situações mais graves, que não se tomem decisões mais musculadas para não colocar em risco a sementeira toda. Com menos aproveitamento por parte de alguns em detrimento do todo geral, tudo pode ser mais puro, natural e justo.