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Um adolescente incomodado(2)

Ricardo, sem dizer nada a ninguém, saiu de casa com a intenção de viver intensamente a “comezaina” que os oitenta euros de prenda dos seus irmãos mais velhos – seus padrinhos também – lhe tinham oferecido. A esta quantia juntou mais vinte e cinco euros, que uma tia, irmã de seu pai, lhe tinha deixado como recordação.


 

Sempre pensou em dirigir-se a um café restaurante que muito cobiçava, entre outros motivos, porque ouvia com frequência os elogios dos seus colegas de escola ao que ele servia. Estes, habitualmente, eram filhos únicos ou de pouca prole, pelo que não tinham, como ele, de repartir as guloseimas com os seus irmãos. “E assim é que está bem”, cogitava no seu interior.

Entrou e sentou-se numa mesa. Ao vê-lo, o dono, que também servia os clientes, perguntou-lhe: “Que queres tomar?” O rapaz dirigiu-se ao balcão e, olhando para os petiscos que num mostruário de vidro se expunham, escolheu os que quis e pediu também uma coca-cola e um sumo de laranja. O dono, surpreendido com a magnitude da ementa, perguntou-lhe: “Tens dinheiro para pagar isto tudo?” Ricardo, com ar superior, respondeu: “Esteja descansado...”


 

Comeu e bebeu tudo o que lhe foi servido, com um ar sereno e de boa disposição. Calculou que ainda lhe sobravam cerca de 15 euros das prendas de anos. E perguntou: “Quanto devo?” O dono disse-lhe e ele concordou. No entanto, quando meteu a mão no bolso, reparou que tinha deixado a carteira em casa. Ficou um pouco atrapalhado e explicou, tremelicando, algo aflito, a sua a voz: “Peço desculpa, mas tenho de ir a casa buscar a minha carteira, porque me esqueci de a trazer...” O dono não se comoveu... Chamou um seu empregado e disse-lhe “Toma conta deste rapaz, enquanto eu vou chamar a polícia...” Ricardo ficou atarantado. Quis repetir o que tinha explicado, mas sentiu a mão do funcionário cravar-se no músculo do seu braço direito, perto do ombro. “Está quietinho e espera...” Não me aperte tanto...” “Caluda...!” E afincou-lhe o músculo, causando-lhe um sofrimento mais agudo. “Com que então ias a casa...”


 

O dono voltou do telefonema e, calmamente, observou: “A polícia está a chegar e vais-lhe explicar tudo...” Ricardo balbuciou: “Mas eu tenho dinheiro... Só que me esqueci da carteira...” “Explicas isso à polícia… E ela te dirá o que deves fazer...”


 

Dois agentes chegaram num carro. Entraram e perguntaram: “O que é que aconteceu?” O dono explicou. E um dos polícias perguntou ao Ricardo: “Vem connosco à esquadra...” “Mas eu tenho dinheiro. Só que me esqueci da carteira em casa. Deixem-me ir lá num instante e já volto...” O chefe observou: “Quando queres andar de bicicleta, sentas-te numa cadeira e começas a mexer as pernas?... Vem connosco à esquadra...” Apertou-lhe o braço e obrigou-o a segui-lo em direcção da saída. Neste momento, entrou a mulher do proprietário, que perguntou: “O que é que aconteceu...?” O marido explicou-lhe. Ela olhou para Ricardo e perguntou-lhe: “Parece-me que te conheço... Qual é o teu nome completo?” O moço pronunciou-o, um pouco hesitante. “És filho da D. Mariana e do Dr Sousa, advogado?” “Sim, sou o mais novo...” A mulher pediu ao polícia: “Deixe-o ir a casa, porque a sua família é gente séria”. Largou-o e ele saiu. Pelo caminho, sentiu-se tão enjoado e confuso, que acabou por vomitar tudo o que comera. E murmurava, esgotado, já depois de saldar a dívida : “Só a mim é que me acontecem estas coisas…”

Pe. Rui Rosas

Pe. Rui Rosas

28 julho 2026