Havia um menino que pensava ter Deus o hábito de passar, de madrugada, pelas aldeias e, por isso, acordava muito cedo. Carlos, Diogo, Bruno? Não me recordo do seu nome!
Enquanto o mundo ainda bocejava, ele caminhava pelos campos, convencido de que as primeiras pegadas sobre o orvalho podiam muito bem ser as de Deus. Conversava com as oliveiras antigas, porque lhe pareciam profetas silenciosos. Perguntava às videiras como era possível que um tronco retorcido produzisse uvas tão doces. Gostava das figueiras, porque Jesus, um dia, lhes dirigira a palavra, como se tivessem ouvidos. Mas eram as amendoeiras as suas preferidas, porque floriam quando o inverno ainda parecia mandar em tudo e vestiam-se de branco quando as restantes árvores continuavam despidas.
Um dia, o seu pároco, que também era madrugador, encontrou-o e disse-lhe:
- Gosto das amendoeiras porque são as primeiras a acreditar na primavera.
O menino guardou aquela frase como quem guarda uma semente ou um tesouro.
Quando a professora perguntou a cada um o que deseja vir a ser, as respostas brotaram, de forma explosiva e muito variada. A desse menino, contudo, foi serena e firme:
- Quero ser padre!
Os colegas olharam para ele como os discípulos para Jesus, quando falou de dar de comer a uma multidão com cinco pães e dois peixes. Parecia uma ideia impossível.
- Tu tens uma família e gostas de estar em grupo. Não vais ter medo de viver sozinho?
- Só vive sozinho quem não tem amor para repartir e afetos para partilhar. Nunca vi a fonte beber da própria água ou a vela guardar a luz para si.
Ficaram todos em silêncio. Há respostas que não cabem nos manuais escolares e ninguém sabia como lhe nascera aquele sonho. No dia em que viu o pároco levantar o pão e o vinho com mãos tão humanas que pareciam tocar o céu? Ou na tarde em que o avô lhe ensinou que Deus fala baixinho, para que ninguém o confunda com o barulho? Só Deus sabe...
O menino tornou-se acólito, nem sempre com grande sucesso. Uma vez tropeçou nos degraus do altar e deixou cair as galhetas, outra fez soar as campainhas antes do tempo... O sacristão levava as mãos à cabeça, mas o pároco esboçava um sorriso e deixava andar.
Aos poucos, o menino foi percebendo que o Evangelho nunca começa pela perfeição, mas por um chamamento inusitado. Abraão era velho, Moisés gaguejava, Jeremias dizia-se demasiado novo, Jonas fugia, Pedro afundava-se e, apesar disso, Deus continuava a escrever histórias de salvação. Talvez porque o barro nunca impede o oleiro de sonhar.
Enquanto os outros corriam atrás da bola e das borboletas, ele passava tardes na igreja a escutar o silêncio, que não é ausência de palavras, mas uma espécie de ninho onde Deus choca promessas. Sentava-se diante do sacrário, não rezava muito, mas olhava fixamente. Aprendera que também os girassóis rezam sem abrir a boca, basta-lhes voltar-se para a luz.
Os anos passaram como passam os rios: sem fazer barulho. Chegaram as perguntas, as dúvidas, os medos e as noites em que Deus parecia esconder-Se atrás das nuvens. Num desses momentos, perguntou ao pároco:
- Senhor padre, como sei que é Deus quem chama?
O sacerdote pegou num grão de trigo, colocou-o na mão do menino e respondeu:
- Talvez vejas só um grão, mas podes ver muito mais: um campo, pão, crianças saciadas, Eucaristias que hão de acontecer.
Depois, fechando-lhe lentamente a mão, continuou:
- Deus não chama apenas aquilo que és, mas também o que podes vir a ser.
O menino gostou da resposta e guardou esse grão durante muitos anos. Quando entrou no seminário, ainda o tinha no meio da Bíblia. Não porque fosse um amuleto, mas porque lhe lembrava que nenhuma semente conhece a beleza da espiga se permanecer fechada sobre si.
No dia da sua ordenação sacerdotal, ao deitar-se por terra, durante a Ladainha dos Santos, lembrou-se das amendoeiras e do grão de trigo. Percebeu finalmente que a vocação nunca tinha sido uma árvore adulta, mas era um grão de trigo lançado à terra, disponível para germinar e destinado a produzir fruto. Começara como uma flor frágil, aberta em pleno inverno, quando ninguém acreditava que a primavera fosse possível.
No dia da sua missa nova, o filho de uns amigos aproximou-se e perguntou-lhe:
- Senhor padre, será que Deus também me chama?
- Sim, Deus também te chama, mas não grita. Ele prefere a delicadeza das sementes que crescem devagar e em silêncio, até se tornarem plantas ou árvores.
E deu consigo a pensar que Deus continua a chamar, não com o estrondo do trovão que assusta, mas com a paciência da chuva que fecunda; não com a força que obriga, mas com a ternura que atrai. Como quem deixa cair uma semente no coração de um menino... e espera, sem pressa, que um dia ela dê sombra, pão e Evangelho.
Porque as grandes vocações começam do mesmo modo que o Reino de Deus: pequenas como um grão de mostarda, discretas como o fermento escondido na massa. Fora esse, aliás, o texto do evangelho proclamado no dia da sua ordenação!