Porque é que o comando da televisão desaparece? Hoje, a partir de uma situação tão comum como o desaparecimento do comando da televisão, procurarei refletir sobre a ilusão de que mandamos nas coisas. O comando estava ali há poucos minutos e, de repente, deixa de existir. Procuramos entre as almofadas, debaixo do sofá e até no frigorífico. Ninguém lá em casa assume que lhe mexeu e começa uma investigação familiar digna de uma série policial.
Caros leitores, o mais curioso talvez não seja o desaparecimento do comando, mas a rapidez com que perdemos a calma. Sem ele, remexemos a sala e interrompemos tudo, como se aquele pequeno objeto tivesse passado a mandar na nossa noite.
Mas, afinal, porque é que o comando é tão importante? Porque nos permite mudar tudo à nossa maneira, escolher o que queremos ver, aumentar ou baixar o som e passar à frente do que não nos interessa. Essa sensação de controlo torna-nos mais cómodos, mais impacientes e menos disponíveis para aceitar aquilo que não obedece à nossa vontade. E talvez nenhum momento mostre melhor essa necessidade de controlo do que uma final de futebol. Na recente vitória da Espanha frente à Argentina, bastava imaginar o comando perdido numa frincha do sofá para começar uma azáfama familiar, com almofadas pelo ar e acusações para todos os gostos. Mas a vitória espanhola mostrou que um jogo se constrói com circulação de bola, confiança entre os jogadores e capacidade para esperar o momento certo. No golo de Ferran Torres, a bola pareceu um ponto que começou a andar e se transformou numa linha em direção à baliza, lembrando a imagem do pintor Paul Klee, para quem “uma linha é um ponto que saiu a passear”.
Para percebermos melhor este desejo de ter o comando nas mãos, vale a pena recuar à mitologia grega. A história de Faetonte ajuda-nos a compreender bem o problema. O jovem quis conduzir o carro do Sol para provar que era filho de Hélio, pediu as rédeas e julgou que bastava segurá-las. Depressa descobriu, porém, que ter o comando não significa saber conduzir. Os cavalos saíram da rota e provocaram o caos. O mito continua atual porque há quem deseje o poder sem perceber que comandar exige preparação, equilíbrio e responsabilidade.
A política também conhece muitos Faetontes. Antes das eleições, todos parecem capazes de resolver a saúde, a educação e a habitação. Depois, quando as promessas não são cumpridas, surgem como desculpas o governo anterior, a oposição, Bruxelas, os técnicos e, se for preciso, o comando desaparecido. Alain, pseudónimo do filósofo francês Émile-Auguste Chartier, escreveu que “nada é mais perigoso do que uma ideia, quando se tem apenas uma”. Talvez por isso, às vezes, o comando pouco mude, pois percorremos os canais e alguns debates políticos e desportivos parecem sempre o mesmo programa. O que verdadeiramente nos acrescenta não é mudar de canal, mas perceber o que merece ser ouvido, questionado e pensado.
É também por isso que, na minha vida de professor e na de tantos colegas, procuramos ajudar os alunos a usar o comando com critério, ética e responsabilidade. Na escola, ele não deve ficar apenas nas mãos de quem ensina, nem ser entregue sem qualquer orientação. Como escreveu Paulo Freire, “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou construção”. Educar é ensinar a decidir sem deixar de ouvir os outros.
Meus amigos leitores, o comando desaparecido deixa-nos uma lição. Nem tudo o que foge ao nosso controlo está perdido e nem tudo o que controlamos está bem conduzido. Por vezes, a vida obriga-nos a sair do sofá e a perceber que há decisões que só nós podemos tomar.
No fim, não se preocupem demasiado com a saga do comando perdido. Ele estará de certeza debaixo do sofá, onde já espreitaram três vezes, mas que ainda não se lembraram de arrastar. Talvez algumas respostas da vida também estejam mais perto do que pensamos…
- E quando o comando voltar às nossas mãos, vamos usá-lo apenas para mudar de canal ou perceberemos que, por vezes, somos nós que precisamos de mudar?