«A liturgia subverte e retifica profundamente a hierarquia das nossas preocupações mundanas e transitórias para as substituir por outras». (François Cassingena – Trévedy: La Belleza de la Liturgia, Ed. Sígueme, Salamanca, 2008, p. 76). Escreve São João Crisóstomo: «A Igreja de Deus é uma assembleia espiritual, é a medicina das almas. Tal como se tivéssemos assistido a uma festa, devemos regressar da assembleia trazendo toda a classe de benefícios e sair dela providos dos remédios adequados aos nossos padecimentos, como se tivéssemos ido consultar um médico. Se nos reunimos, não é apenas com a finalidade de nos encontrarmos e depois nos separarmos, mas porque cada um, aprendendo nesta ocasião algo que lhe resulta útil, regressa com o remédio apropriado ao mal que o aflige. Que há de mais doce do que a maneira como se passa o tempo aqui? … Há muitos irmãos; está o Espírito Santo; está Jesus no meio de nós; está o Pai. Serias capaz de encontrar uma assembleia comparável a esta? Quantos bens sobre a mesa, na escuta da Palavra, nas bênçãos, nas orações, nas reuniões!». (Trévedy, pp. 77-78)
A liturgia representa um fator de equilíbrio e harmonia no plano psicológico, porque coloca o homem diante de Deus e entre os irmãos, assegurando as duas vertentes essenciais da base relacional indispensável na construção de uma verdadeira personalidade humana. A Liturgia instaura no mais profundo e mais íntimo do homo ecclesiasticus um clima, uma atmosfera muito agradável e empática que poderíamos denominar euritmia.
É o magistral uso que a Igreja faz da Escritura na Liturgia que a torna legível e a transforma em Palavra de Deus para os crentes. Se dispuséssemos unicamente da Bíblia, não saberíamos muito bem o que fazer com ela. A distribuição dos textos ao longo do ciclo litúrgico proporciona-nos um guia que permite que a nossa leitura pessoal da Escritura se exercite até ao infinito. Há uma grande sabedoria em seguir escrupulosamente o percurso que a Igreja nos propõe. Podemos dizer que, de alguma maneira, com o lecionário litúrgico, o cánone escriturístico original é em certo modo substituído por outro. A Igreja subdivide e distribui a Escritura em textos e dá-lhes uma sequência que, de per si, significa uma exegese. O conhecimento prévio do uso litúrgico que se faz de um texto da Escritura constitui, no âmbito católico, um elemento decisivo para a sua interpretação. Na leitura oficial, solene e comunitária que faz da Escritura, a Igreja expressa a sua verdadeira estrutura e o elemento formal de tal estrutura, que é de ordem cristocêntrica. A Igreja organiza o corpo da revelação escrita em torno do seu eixo: Cristo Salvador. É, pois, na liturgia que se afirma com maior clareza a dupla relação de prioridade e de autoridade que a Igreja mantém com relação à Escritura, em ordem à fé objetiva. Não é a Escritura que funda a Igreja, mas a Igreja que legitima a Escritura e se serve dela liturgicamente segundo um modelo bem provado que já é, de per si, um processo de revelação de sentido. Por isso se pode afirmar que não é a exegese que tem precedência sobre a liturgia, mas ao contrário. (Trévedy, pp 79-80)
Paul Claudel disse isto de uma maneira sublime: «A Igreja católica, como um poeta extraordinário, tomou de todas as partes: fragmentos dos Padres, da Bíblia, das narrações hagiográficas, dos escritos poéticos, para, com eles, fazer uma construção viva na qual são utilizadas harmonicamente todas as riquezas do universo num hino de glória ao Criador». (pp. 80-81).
A Liturgia tem uma autoridade prescritiva e normativa, que não deve cair na rigidez maníaca que, por vezes, ataca certos liturgistas, mas que nos diz que não existe liturgia autêntica sem docilidade inteligente às rubricas, sejam elas prescritivas, ou meramente indicativas. Não existe estética litúrgica que possa eludir o carácter normativo da liturgia. Não pode ser interpretada por conta própria, porque a liturgia nos dispõe e prepara para o nosso fim último: o louvor e o exercício perene do sacerdócio batismal. O Amor é o manancial de harmonia no mistério pessoal de Deus e também da Igreja, que em nenhum lugar resplandece tanto como na ação litúrgica.
O elemento epifânico próprio da liturgia é o gesto de Deus em Cristo, gesto que nos afeta e nos coordena com Ele e entre nós. É sobretudo esta coordenação que confere à liturgia a sua dimensão estética. Esta potência harmonizadora do agápe, princípio autêntico e último das nossas assembleias, mostra-nos que é nesta congregação no amor de Cristo que está a verdadeira e insuperável beleza, que brota da iniciativa divina e supera todas as nossas mediocridades, coordenando-nos uns com os outros, com o olhar posto no fim que nos ultrapassa. (Trévedy, pp.83-84)