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O Faustino, meu condiscípulo

Na minha adolescência, tive um companheiro que sempre revelou falta de interesse pela escola. Quando jovem maduro, deixei de o ver. Ele era magro, alto, olhar de lince e sisudo.

Normalmente, fazia-se acompanhar dum canito de cor branco-sujo, de pêlos eriçados, focinho alongado e rosnava facilmente. O Faustino, de gorra gasta na cabeça, circulava pelos caminhos - ao lado do canídeo - confiadamente. Um dia este meu ex-condiscípulo desapareceu e soube que tinha emigrado para o Brasil.

Passaram-se já cerca de seis décadas e, Manaus, pelos vistos, não mudou de nome, porque no restaurante onde me banqueteava com um naco de javali à lá rose, dois cavalheiros, saudosamente falavam de Manaus, "choravam" por Manaus!

A carne de javali estava divinal e, o tinto alentejano que o regava estava à altura desse feio, mas saboroso bicho do monte!

Eu ouvia os meus "vizinhos de restaurante" e deixava-me lambuzar pelo repasto. Escutava sorridente os dois cavalheiros e várias vezes lhes dei a entender que gostava de “entrar em Manaus”, felicidade e saudade de ambos, testemunhada à mesa num restaurante luxuoso, mas pouco frequentado.

Finalmente entrei na conversa e, com certa oportunidade, testemunhei-lhes que conheci um rapaz meu colega de escola, que um dia tinha emigrado para Manaus.

- Mas então vocês deixaram Manaus? - perguntei.

- Deixamos Manaus, porque somos Minhotos e queremos morrer na nossa terra. Temos no Brasil filhos e netos que estão bem na vida, mas nós quisemos regressar. Somos daqui de perto, fizemos a quarta classe, emigramos, mas queremos morrer cá.

- Olhando bem para si e imaginando-o jovem, parece-me que o conheci em tempos atrás.

- É possível. Eu sou o Faustino, da Casa de Mamperre, não sei se o nome lhe diz alguma coisa. Acrescentou.

- É curioso! - disse-lhe. Tu és o Faustino e eu sou aquele que te deixava copiar o ditado e as contas de dividir na escola! Lembras-te?

- Você é uma cara legal. Sempre foi cara legal! Afirmou.

E aos abraços, com gargalhadas sinceras e em franca cavaqueira animada pelo néctar fabuloso que nos aquecia as almas e os sovacos, afirmou o Faustino em português do Brasil: 

- Vim de Manaus, mas venho doente. Já programei onde quero retardar a minha morte e vou acantonar-me numa luxuosa vivenda, com consultório médico e farmácia, sala de operações com o mais actual equipamento, médicos e enfermeiros particulares a ganharem o que pedirem, bem como pagar bem a pessoas desconhecidas de ambos os sexos, que me queiram visitar diariamente no leito.

- Mas, escuta bem Faustino: é mais sensato recolher aos hospitais ou a lares, porque neles tens tudo! - aconselhei.

- Não, não vai ser assim, disse. Vai ser como expliquei atrás. Sei que em Portugal os médicos não sobejam; os hospitais estão superlotados, pelas enfermarias e corredores; os doentes são números, e números regressam a casa ou à morgue; há listas de espera para consultas e operações; médicos-de-família é um milagre tê-los e, até para se ser enterrado há problemas. Ora eu, que tenho dinheiro que baste, e que não me importo de pagar até ao último momento de vida, quero retardar a morte segundo a minha orientação e não como certos facínoras e raquíticos políticos querem: eutanaziar-me.

- Mas, Faustino - interrompi. Porquê pagares a quem te venha visitar, se tens amigos e família?

- Não quero nem uns nem outros junto do meu leito. 

Para sofrer, não. Pretendo, por isso, duas espécies de pessoas para me darem alento e para isso pagar-lhes-ei. 

Para me divertirem, pagarei o que for necessário ao conselheiro da emigração moderna, Passos Coelho; ao especialista em migrações, André Ventura; ao moderno ilusionista António Costa; ao humorista Francisco Louçã. Mas, em primeiro lugar junto de mim, quero José Sócrates, porque convence um semimorto como eu. 

E para ajudar a retardar a minha morte, quero visitadores a quem pagarei como se paga aos deputados portugueses, a presença de coxos, alguns estropiados, extáticos, centenários em bom estado e alguns trémulos.

- Mas porquê estas pessoas? De que te servem, Tibúrcio?

- Os coxos e estropiados quero-os a dançar freneticamente em frente a mim, de forma que eu ria com os seus tombos; os extáticos, consolar-me-ão ao ser-lhes provocadas longas gargalhadas por cócegas aplicadas; os trémulos, irão divertir-me a tocar viola e a bater tambores e quero os centenários saudáveis, porque me darão a esperança de ser centenário também! Todos funcionarão como travão na minha morte!

- Meu bom e excêntrico Faustino - disse eu, em tom de despedida. - Acho bem que morras organizado, sossegado e alegre. Dar-te-ei toda a força, e prometo arranjar-te um grupo de carpideiras que te chorem bem alto, uma vez que actualmente pouco se chora pelos mortos. E não esqueças, Faustino, de contratares também um bom psiquiatra, que faça de ti um centenário em bom estado.

(O autor não segue o acordo ortográfico de 1990).

Artur Soares

Artur Soares

10 julho 2026