Grande parte do universo literário de Aquilino Ribeiro pode ser localizado ao longo de uma diagonal traçada no mapa do Norte de Portugal, unindo o santuário da Senhora da Lapa — onde estudou — a Paredes de Coura. Nesse traçado — próximo do Caminho de Torres, que liga Salamanca a Santiago de Compostela — cruzam-se geografias e personagens: das agrestes terras altas beirãs ao verde intenso do Alto Minho. Pelo meio surgem Braga, Guimarães, Amarante, o Marão e os caminhos difíceis que consumiam vidas — como na travessia evocada em A Casa Grande de Romarigães, em que o percurso expõe o obscuro da condição humana. Entre o granito nu e o húmus fértil, estende-se um território que não é apenas físico, mas também humano, cultural e profundamente identitário.
Em Terras do Demo (1919), Aquilino retrata a vida dura das populações de um território montanhoso e, na época, isolado e pobre — Moimenta da Beira, Sernancelhe e Vila Nova de Paiva. As personagens vivem num ambiente dominado pela economia de subsistência, pela religiosidade popular, por superstições e pelo analfabetismo, mas também por uma omnipresente ligação à terra. A linguagem rica e expressiva recria o falar popular e dá vida a figuras típicas — lavradores, padres, almocreves —, articulando simultaneamente crítica social e homenagem à autenticidade dessas comunidades de um Norte de há cem anos.
A Casa Grande de Romarigães (1957) é uma saga familiar que se estende por cerca de dois séculos, acompanhando a ascensão e a decadência de uma casa senhorial minhota. Mais do que a história de uma família, é o retrato de uma ordem social em transformação: a velha aristocracia rural perde centralidade, enquanto o mundo em redor se altera. A casa torna-se, assim, símbolo de permanência e, simultaneamente, de declínio — metáfora de um país que se redefine, mas onde há territórios a que a modernidade nem sempre chega. O local, incluindo a capela da Senhora do Amparo, foi, entretanto, bem recuperado pelo município de Paredes de Coura.
Nas suas viagens e estadas por Trás-os-Montes, Douro e Minho, Aquilino encontrou uma região onde a rusticidade convive com uma extraordinária densidade simbólica. As paisagens — socalcos, serras abruptas e vales cavados — não são meros cenários: são um caldo onde germina e se molda carácter. Se a infraestrutura física, nomeadamente a rodoviária, é hoje muito diferente, a resiliência, o orgulho e a frontalidade das populações, bem como a sua ligação quase sagrada à terra, mantêm-se como traços duradouros, mesmo para além do espaço rural.
O tecido social frágil e heterogéneo, feito de camponeses pobres e figuras marginais, descrito em Cinco Réis de Gente (1947), forma um mosaico humano onde a dureza da vida convive com engenho, astúcia e expedientes como os do Malhadinhas. Porém, esses quadros podem ser corrompidos e as tensões sociais amplificadas, como sucede em Volfrâmio (1944), onde Aquilino evidencia contextos em que a ganância e a oportunidade se sobrepõem à solidariedade comunitária — quando forças externas, económicas e políticas, alteram profundamente os referenciais locais.
Na fronteira norte — Valença, Monção, Melgaço — a mobilidade, lícita ou clandestina, sempre foi uma forma de sobrevivência. Em obras como Estrada de Santiago (1922), Aquilino mostra emigrantes, contrabandistas e viajantes, num espaço em que a fronteira é simultaneamente geográfica, moral e política. Mais do que narrativas de deslocação, estas obras expõem modos de vida toldados pela escassez, pela ausência do Estado e pela necessidade de adaptação — um traço que marcou a emigração da segunda metade do século XX e que ainda hoje reconhecemos.
Essa tensão manifesta-se também em Quando os Lobos Uivam (1958), na denúncia da incompreensão de um poder central distante — não só das referidas Terras do Demo, mas também de Penedono, São João da Pesqueira, Tabuaço e Armamar. A imposição da florestação dos baldios pelo Estado Novo — ao retirar às comunidades recursos essenciais — revela um padrão que vai além do contexto histórico: decisões tomadas longe do território, em nome de um interesse geral, mas ignorando a realidade local. O conflito não é apenas político; é civilizacional, opondo uma cultura comunitária, enraizada e solidária, a uma lógica centralizadora, burocrática e pouco conhecedora das realidades socioeconómicas locais.
Esta crítica, mais do que circunstancial, é estrutural. Nos romances de Aquilino, o Estado surge como uma entidade distante, cega e injusta. E, embora hoje vivamos em democracia e fortemente mediados pela tecnologia, não é difícil reconhecer a persistência dessa lógica. Muitas políticas públicas continuam a ser concebidas pelo poder central e aplicadas de forma uniforme a territórios profundamente diversos. O resultado é visível: abandono de atividades tradicionais, perda de atratividade e de população, e consequente envelhecimento acelerado.
O inverno demográfico é também consequência de uma rutura entre poder e comunidade. Quando os saberes locais são desvalorizados e as decisões são tomadas sem enraizamento, o território perde vitalidade e sentido. Aquilino ajuda-nos, assim, a ler o presente: o esvaziamento de muitos territórios não resulta apenas de inevitabilidades económicas, mas também de uma forma de governar que persiste em vê-los como problema a gerir, e não como realidade a compreender.
Autores contemporâneos como Álvaro Domingues, na análise crítica de geógrafo, ou Valter Hugo Mãe, no retrato literário de universos humanos periféricos, têm vindo a sublinhar que o território continua a ser condicionado a partir de um poder distante, frequentemente incapaz de compreender e de dar voz à diversidade concreta do país — críticas que ecoam, com surpreendente atualidade, na obra de Aquilino.
Permanece a matriz do Norte — uma resistência discreta, feita de trabalho, memória, pertença e, hoje, de mais conhecimento. Essa energia sustenta casas, lugares e identidades, mesmo quando tudo parece empurrar para o abandono. Talvez por isso seja providencial que a casa de Aquilino, na Soutosa, e, em particular, a sua biblioteca, precisem hoje de recuperação. A preservação desse legado — em que os autarcas da Fundação Aquilino Ribeiro estão empenhados — é mais do que um gesto de memória cultural: é o reconhecimento de um país e, sobretudo, de um Norte que Aquilino viu com lucidez — diverso, desigual, mas profundamente enraizado na força das suas gentes.
Ser daqui VIII - Lugares de Aquilino
António M. Cunha
8 julho 2026