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Ir a banhos

Pois, amigo leitor, como todos os anos chegam as férias e lá vamos a banhos; e o banho é quase uma instituição nacional que nos leva a pensar nos  banhos de multidão, cada vez mais difíceis para os homens e mulheres da política, nos  banhos de assento  muito na moda para certos deputados que, apenas, se limitam no Parlamento a dá-los ao dito cujo, nos banhos-maria cada vez mais receitados para alguns resultados eleitorais e nos  banhos-turcos  que põem certos políticos provincianos a suar as estopinhas para convencerem o povo de que são os melhores do mundo.
Todavia, não são estes os banhos que me cabem aqui trazer, mormente os banhos de mar, de pasmaceira e de sol, de papo ao alto, a curtir o espaço imenso com arremedos de filósofos ou de poetas, tal qual um príncipe das arábias, mesmo em saiote e turbante à foge que te agarro.
E sempre assim é, pois mal chega julho ou agosto é esta maluqueira nacional; tudo quanto seja sol e mar é libertação e sortilégio; e, talvez, porque nós, lusitanos de antanho, herdamos uma carnuda costela marítima que veio de longe e nos atraiu, na esteira de Gamas e Cabrais, aos oceanos.
Ao-fim-e-ao-cabo, ainda é dos únicos prazeres que estão isentos de pagar impostos; e nem o buraco do ozono que, penso mesmo, ter sido uma invenção de alguns hidrófobos, já não é problema para os amantes dos banhos de mar e dos areais, porque cicatrizaram de vez, permitindo cada vez mais a fuga às cidades poluídas e escaldantes.
Vamos, pois, amigo leitor, fazer como qualquer mortal que se preze e ter o sentido de prazer, afinal barato e fácil; estenda o seu cabedal ao sol numa qualquer praia cá da zona, embora, se possível, com bandeira azul da EU, mas, tristemente ainda com muita porcaria e bagunça nacional; e, assim, pode ver como vai o físico masculino e feminino do povão que desfila à sua frente em trajes menores e talvez chegue à triste conclusão que os governos ainda lhes não tiraram toda pele, mas já pouco falta, por obra e graça de impostos, taxas, taxinhas, ordenados baixos e desemprego.
Não há dúvida de que a praia tem esta crua desmistificação; aí, em trajes menores, é que se vê como as coisas são por dentro, o que me leva muitas vezes a concluir que é preferível certas pessoas bem vestidas do que mal despidas; e a poluição visual, neste entretanto, sempre é menor e, obviamente, mais profilática.
Claro, como os meus amigos leitores não são dos que granjearam casa própria na praia como certos malabaristas cá da praça que a conseguiram enquanto o diabo esfregava um olho e o povo tinha os dois tapados, deixe-se, ao menos, embalar pela grande, pela única certeza de que eles hão-de morrer como todos nós e chegar-lhes-ão igualmente sete palmos de terra para os cobrir e, depois, o mais importante é o que se lava na bagagem e o epitáfio que cá deixamos.
Todavia, se tiver a sorte de não lhe doer nada, de ter uma bucha para o almoço e outra para o jantar e ainda lhe sobrar uns trocos para um cafezinho e um cigarrinho, dê-se por satisfeito; e quando for votar nas próximas eleições pense bem em quem não deve votar, porque, afinal, eles parecem-se quase todos uns com os outros; prometem muito, cumprem pouco e sofrem demais de amnésia.
Assim sendo, pensamentos positivos neste verão e até setembro para estas habituais conversas semanais de amigos, e com muitas banhocas e outros tantos mergulhos, mesmo que sejam na banheira lá de casa e cuidado, muito cuidado com as cãibras... na carteira, e veja se consegue gozar muito e gastar pouco, porque o contrário não tem piada, nem é aconselhável, mas, infelizmente é o que a maioria do povo consegue fazer.

Então, boas férias e até setembro.
 

Dinis Salgado

Dinis Salgado

8 julho 2026