A oferta das Misericórdias para receberem os abandonados nos hospitais por falta de poderem ser recebidos por familiares ou porque, na verdade já não têm família, é um bálsamo numa ferida velha. Tantos serão aqueles que trabalharam, suaram e comprometeram o seu descanso para dar tudo aos familiares que ora os rejeitam? Não sei, mas sinto que na alma se abre um buraco enorme que se chama ingratidão. E porque não tinham para onde ir, ficavam nas camas dos hospitais apesar de estarem, com saúde para de lá saírem. Devem sentir tal desilusão que as lágrimas já não podem ser furtivas. O sofrimento da ingratidão tem a cor da crueldade. Bem-vindas serão as asas da misericórdia que as Misericórdias abrem, ao recebê-los. Mas é preciso que o governo que é, por obrigação institucional o primeiro responsável pelas soluções das feridas sociais, se não esqueça de atribuir às Misericórdias recetoras destes abandonados as verbas necessárias como suporte de sustentação. Mas também a própria sociedade, que é cúmplice desta desumanidade, deve contribuir para essa mesma sustentabilidade. E este aspeto material tem em si uma mensagem a todos nós, lembrando-nos que os abandonados são nossos irmãos, à espera dum gesto de solidariedade. A sociedade que somos todos nós, deveria ter vergonha de olhar e virara a cara a estes pobres abandonados. Penso mesmo que deveríamos contribuir monetariamente num peditório nacional que para o efeito se deveria institucionalizar em DIA DO ABANDONADO. Os recursos que daí adviessem teriam a dupla imagem da utilidade e da responsabilidade social. Se há dias para tudo porque não o dia do Abandonado? Também em sede de IRS nada custaria fazer a cruzinha no IBAN referenciado. Os meus louvores às Misericórdias de D. Leonor, porque cumprem um dos seus desígnios e porque, por este meio, incomodaram as consciências. O charco tem águas estagnadas e cheiram a lodo, mas como em tudo na vida há despertares que são arrebóis. Que assim seja, desejamos.