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A segunda urgência: reaprender a trabalhar

 

 



 

No último artigo defendi a urgência de reaprendermos a ensinar. Argumentava, então, que os modelos educativos que herdámos foram concebidos para uma realidade económica, social e tecnológica que já não existe. Se essa reflexão é válida para a educação, é igualmente válida para o trabalho. Talvez estejamos a entrar num período em que a grande questão não seja apenas como ensinamos, mas como trabalhamos. Durante décadas, preparámos pessoas para profissões relativamente estáveis, inseridas em organizações estruturadas, onde a experiência acumulada garantia progressão e segurança. O conhecimento adquirido numa fase inicial da vida era, em muitos casos, suficiente para sustentar uma carreira de várias décadas. Hoje, essa lógica está a ser profundamente questionada. A robotização, a inteligência artificial e os novos modelos de trabalho autónomo estão a transformar a forma como o valor é criado. Tarefas repetitivas, previsíveis e baseadas em procedimentos estão a ser progressivamente automatizadas. Ao mesmo tempo, ferramentas de inteligência artificial conseguem executar atividades que, até há poucos anos, exigiam competências técnicas especializadas. O impacto destas mudanças não se limita à substituição de tarefas; afeta a própria organização do trabalho e o papel das pessoas nas organizações. Nos próximos anos, assistiremos a uma convivência cada vez mais estreita entre trabalhadores e sistemas inteligentes. A vantagem competitiva deixará de estar apenas na capacidade de executar, passando a residir na capacidade de interpretar, questionar, decidir e criar. Saber utilizar a inteligência artificial será importante, mas mais importante será compreender os seus limites, validar os seus resultados e enquadrar as suas respostas num contexto humano, ético e estratégico. Num horizonte um pouco mais alargado, veremos também organizações diferentes das que hoje conhecemos. Estruturas excessivamente hierarquizadas tenderão a perder eficácia perante modelos mais flexíveis, organizados em torno de projetos, objetivos e equipas multidisciplinares. O conceito tradicional de função poderá dar lugar a algo mais dinâmico: um portefólio de competências que cada profissional mobiliza em diferentes contextos e desafios. Esta transformação exigirá uma mudança profunda na forma como encaramos a aprendizagem. A formação deixará de ser um momento específico da vida para passar a ser uma atividade permanente. As organizações que investirem na atualização contínua das suas pessoas estarão mais preparadas para enfrentar a incerteza do que aquelas que apostarem apenas na aquisição de tecnologia. O desafio torna-se ainda mais evidente quando projetamos o futuro a uma década. Muitas das tarefas que hoje ocupam grande parte do nosso tempo poderão estar automatizadas. O valor distintivo do trabalho humano residirá cada vez mais na criatividade, na inovação, na empatia, na liderança e na capacidade de resolver problemas complexos. Em vez de competir com as máquinas naquilo que fazem melhor, teremos de potenciar aquilo que continua a ser exclusivamente humano. Por isso, a discussão sobre o futuro do trabalho não deve centrar-se apenas na tecnologia. Deve centrar-se nas pessoas. A verdadeira questão não é se a inteligência artificial vai transformar o mercado de trabalho. Essa transformação já começou. A questão é saber se estaremos preparados para nos transformar com ela. Tal como precisamos de reaprender a ensinar para preparar as novas gerações, precisamos agora de reaprender a trabalhar para garantir que a mudança tecnológica se traduz em mais prosperidade, mais oportunidades e mais desenvolvimento humano. Porque o maior risco não é que as máquinas evoluam demasiado depressa. É que nós demoremos demasiado tempo a acompanhar essa evolução. No fundo, ensinar e trabalhar deixaram de ser realidades separadas. Num mundo em permanente transformação, aprender será a competência central de qualquer cidadão, de qualquer profissional e de qualquer organização.



 

Paulo Sousa

Paulo Sousa

21 junho 2026