Espero não abusar da paciência dos meus leitores ao voltar ao tema da Magnífica Humanidade. É redundante afirmar que ela não coloca a sua prioridade na Inteligência Artificial, mas na pessoa humana e na salvaguarda da sua dignidade. Vivemos num contexto social e político absolutamente novo, que se torna ameaçador. Daí que a linguagem do Papa Leão deva ser sempre interpretada como profética. O progresso e a técnica avançaram e abriram caminhos verdadeiramente impensáveis.
Progressivamente, foi-se criando a sensação de que a técnica e o progresso oferecem resposta para tudo. Porém, a realidade concreta da vida desmente, em absoluto, essa afirmação. A vida humana, nas suas mais variadas dimensões, está marcada por inúmeras limitações. Por isso, o Papa, ao falar da Magnífica Humanidade, não deixa de abordar, com clareza inequívoca, a questão dos limites. «A nossa relação com a vida parece estar hoje em crise.» Existem muitos «limites» («incapacidade, doença, velhice, sofrimento, vulnerabilidade»), realidades que, sem receio, não devem ser entendidas como um «defeito a corrigir»; somos antes chamados a «reconhecer a contingência das coisas deste mundo».
Este confronto com o limite não nos paralisa. Há uma certeza: «o humano não floresce apesar dos limites, mas, muitas vezes, através dos limites» (MH 118).
Sabemos que a personagem que acompanhou a reflexão do Papa foi o profeta Jeremias. Teve a ousadia de «ver» a cidade de Jerusalém destruída. Não permaneceu, como a generalidade das pessoas, na lamentação. Assumiu-se como protagonista da restauração e reconheceu que só com a colaboração das famílias essa obra poderia concretizar-se. Uniram-se. Cada um recompôs a sua parte. Contemplaram a beleza da mesma Jerusalém, reconstruída de novo para honra de quem trabalhou e para glória de Deus omnipotente.
O Papa acredita que a humanidade é magnífica com o protagonismo de todos e, em primeiro lugar, da Inteligência Artificial, que, em muitos aspetos, terá de se reformular à luz da lógica do bem comum, e não apenas dos interesses pessoais ou coletivos.
Neste empenho comum e desafiante, há um pormenor que considero de extrema importância. Habitualmente, os discursos papais apresentam, nas páginas finais, uma síntese do essencial desenvolvido ao longo do documento. O Papa Leão não foge à regra e termina com o programa de Maria e com aquilo que, na sua humildade, realizou pela humanidade. Para o fazer, cita-se a si próprio. Convida humildes e poderosos, ricos e pobres, saciados e famintos a adotarem «uma perspetiva diferente, a fim de observar o mundo a partir de baixo, com os olhos de quem sofre, e não com a ótica dos grandes; considerar a História sob o prisma dos pequenos, e não dos poderosos; interpretar os acontecimentos da História a partir do ponto de vista da viúva, do órfão, do estrangeiro, da criança ferida, do exilado e do fugitivo». Assim se «revela o desígnio transformador da economia cristã, o resultado histórico e social, que continua a haurir do Cristianismo a sua origem e a sua força» (MH 245).
São muitas as encruzilhadas. Não podemos permanecer hesitantes perante o caminho a percorrer. A Igreja é detentora de um património que nunca pode ser escondido. Já referi que Edgar Morin afirmava que, na complexidade, a humanidade procurava ilhas retemperadoras onde pudesse reabastecer-se. Não podemos ser bolhas. Teremos de nos tornar «tecelões de esperança no nosso mundo, partilhando o que somos e o que temos, de modo que a presença de Jesus cresça entre nós e o seu Reino tome forma». Juntos, testemunhamos «a beleza de uma magnífica humanidade habitada por Deus» (MH 245).
Os caminhos não são lineares nem previamente conhecidos. Alguém dizia que, em Os Lusíadas, o Adamastor não era apenas o monstro do mar, mas a expressão dos medos, dos limites e das fragilidades humanas. O trabalho passará sempre pelo intercâmbio de vidas e de competências. Se o fizermos, a Inteligência Artificial facilitará e não prejudicará. Será um verdadeiro instrumento para o amadurecimento da civilização do amor.
O Papa Leão dizia, no dia 10 de junho, durante a visita, inauguração e bênção da torre da Basílica da Sagrada Família, em Barcelona, que esta era «a igreja mais alta do mundo não para se destacar em classificações mundanas, mas para guiar os passos do Povo de Deus». Este momento foi assinalado, no exterior, por modernos drones que desenharam a silhueta da Basílica e que depois se harmonizaram para deixar no céu uma legenda: «Primeiro o amor, depois a técnica», frase atribuída ao arquiteto que dedicou a sua vida à idealização e construção daquela obra, António Gaudí.
«Primeiro o amor, depois a técnica.»