Para além de S. Paulino de Nola1, são dois os santos, de proveniência inglesa, que hoje também celebramos: S. João Fisher e S. Tomás Moro, ambos martirizados em 1535, por ordem de Henrique VIII. E são eles que hoje merecem a nossa atenção, porque, se, ao segundo, Erasmo de Roterdão dedicou o seu famoso livro Elogio da Loucura, do primeiro terá dito: “Não há homem mais sábio, não há prelado mais santo”.
João Fisher nasceu em 1469, no Yorkshire2, região que ofereceu uma grande resistência à Reforma Protestante. Com apenas 14 anos, ingressou na universidade de Cambridge e depressa chegou a bacharel e a mestre em artes.
Foi ordenado sacerdote em 1494 e, dez anos depois, o rei nomeou-o bispo de Rochester, ao mesmo tempo que dirigia a universidade onde estudara. Bispo zeloso e fiel a Roma, opôs-se à Reforma protestante de Martinho Lutero, mas também denunciou a ambição, a cobiça e a luxúria da corte romana.
Quando, em 1533, Henrique VIII decidiu casar-se com Ana Bolena3, João Fisher opôs-se firmemente, afirmando que o matrimónio “não podia ser dissolvido por nenhum poder divino ou humano”. Acrescentou que, como João Batista, estaria disposto a sacrificar a própria vida para defender o vínculo matrimonial. Em consequência disso, o rei mandou encarcerá-lo na Torre de Londres, um castelo que, à época, funcionava como prisão.
Dois anos mais tarde, o Papa Paulo III nomeou-o cardeal. Furioso, Henrique VIII condenou-o à morte e a execução aconteceu a 22 de junho de 1535. A sua cabeça esteve exposta 14 dias numa estaca, na ponte de Londres, juntamente com a dos mártires cartuxos, que haviam sido executados três dias antes.
Tomás Moro nasceu em Londres, decorria o ano 1478. Filho de um juiz, ingressou, aos 14 anos, na universidade de Oxford, voltando depois a Londres para estudar Direito. Tornou-se membro do Parlamento inglês e, em 1529, Grão Cancheler de Henrique VIII. Foi, durante esse período, um dos homens mais influentes do reino, mas veio a demitir-se do cargo em 16 de maio de 1532, por recusar-se a apoiar a separação da Igreja de Inglaterra da autoridade do Papa.
O seu livro mais famoso tem como título Utopia. Publicado em 1516, nele exara os seus sonhos, críticas e caricaturas da humanidade e da Inglaterra, em particular. Além disso, descreve uma sociedade imaginária baseada na igualdade, na justiça e na organização racional, adiantando algumas sugestões para um mundo melhor.
Por manter a sua fé e convicções e sobretudo pela sua fidelidade à Sé Apostólica Romana, Tomás Moro foi encarcerado, a 17 de abril de 1534, na Torre de Londres, e acusado de alta traição. Em 1535, foi condenado à morte, vindo a ser decapitado, no dia 6 de julho. Antes de morrer, terá afirmado: “Morro como servo fiel do rei, mas, primeiro, como servo de Deus”.
Ficou conhecido pela sua inteligência, sentido de justiça e defesa dos seus princípios. É, por isso, lembrado como um símbolo de integridade e coragem moral, para além de ter sido um importante humanista, escritor, jurista e político inglês. Homem íntegro e jovial, era um juiz justo e culto, muito estimado pelos humanistas europeus e muito amado pelo povo, em virtude da sua caridade. Ficou também conhecido pelo seu humor e fina inteligência, como se depreende do que escreveu e do modo como viveu, testemunhas de uma fé inabalável4.
João Fisher e Tomás Moro foram beatificados em 1886 por Leão XIII e canonizados em 1935, por Pio XI. Estes dois mártires testemunham que não foi pacífico o processo de passagem da Inglaterra para a Igreja Anglicana. No meio de muita resistência, onde a repressão contra os opositores foi dura, a Igreja Anglicana só foi consolidada no reinado de Isabel I5, depois de um processo longo, imposto pelo Estado e marcado por conflitos, mais do que por uma conversão espontânea da população.
1Nasceu em Bordéus, no ano 354 e faleceu na Sicília, a 22 de junho de 431. Pôncio Merópio Anício Paulino - era o seu nome de batismo - foi bispo da diocese de Nola (na região da Campânia, perto de Nápoles) e é considerado um dos Padres da Igreja do Ocidente.
2Yorkshire é o maior condado histórico da Inglaterra, cobrindo aproximadamente 15000 km2. Na atualidade, a sua população é de 5, 4 milhões de pessoas.
3Em maio de 1527, Henrique VIII começou a pressionar o Papa Clemente VII para obter uma dispensa ou anulação matrimonial. O argumento oficial era que o seu casamento com Catarina de Aragão teria sido inválido porque ela fora casada anteriormente com o seu irmão, Artur Tudor, embora a motivação principal fosse a vontade de se casar com Ana Bolena e ter um herdeiro masculino. O Papa recusou conceder a anulação, até porque estava sob forte pressão política do sobrinho de Catarina, o imperador Carlos V. O conflito acabou por levar Henrique VIII a romper com a Igreja de Roma e a criar a Igreja Anglicana. Em 1533, sem autorização papal, casou-se com Ana Bolena.
4Num discurso proferido no Westminster Hall (Parlamento do Reino Unido), no dia 17 de setembro de 2010, Bento XVI disse que Tomás Moro “é admirado pela sua ‘integridade’, com a qual teve a coragem de seguir a sua consciência, mesmo à custa de desagradar ao soberano, de quem também era ‘bom servidor’, de escolher servir primeiro a Deus”.
5Isabel I reinou entre 17 de novembro de 1558 e 24 de março de 1603.