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Magnifica Humanitas

 


 

“A Magnífica Humanidade criada por Deus encontra-se perante uma escolha decisiva: erguer uma nova torre de Babel, ou construir a cidade onde Deus e a Humanidade habitam juntos. Cada geração recebe em herança a tarefa de dar forma ao seu tempo: de fazer amadurecer a história como um lugar onde a dignidade de cada pessoa seja salvaguardada, a justiça promovida e a fraternidade possibilitada. Sobre cada época, porém, paira o risco de construir um mundo desumano e mais injusto. Ali onde a humanidade corre o risco de perder a sua identidade, nós, cristãos, erguemos os olhos para o Deus feito carne, sabendo que ‘o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente’1. Em Jesus Cristo, esta magnífica Humanidade torna-se o Caminho, a Verdade e a Vida, abrindo a cada um de nós a via para crescermos até à plenitude”. 

É assim que começa a primeira encíclica2 do Papa Leão XIV, publicada no passado dia 25 de maio e intitulada Magnifica Humanitas (MH), um documento sobre a salvaguarda da pessoa humana na Era da Inteligência Artificial (IA). Muitos especialistas defendem que a Magnifica Humanitas é uma espécie de nova “encíclica social” para a era digital, um paralelo moderno com a Rerum Novarum. Tal como a encíclica de Leão XIII, em 1891 (há 135 anos!), respondeu à Revolução Industrial, dando início à Doutrina Social da Igreja, esta que agora vem a lume pretende responder à revolução digital. 

Depois de uma leitura na diagonal e consciente de que não é possível apresentar tão importante e denso documento em tão exíguo espaço, aqui ficam algumas das ideias contidas na Introdução (nºs 1-16), com o objetivo de incentivar à leitura do restante documento, tão pertinente quanto atual.

Leão XIV começa por constatar que “nos últimos anos, tornou-se cada vez mais evidente o quão rápida e profundamente a digitalização, a inteligência artificial (IA) e a robótica estão a transformar o nosso mundo. (...) Estamos diante de uma situação nova, em que o poder e a disseminação das tecnologias emergentes se inserem no curso da vida quotidiana, moldam os processos de decisão e incidem profundamente no imaginário coletivo. ‘Nunca a humanidade teve tanto poder sobre si mesma’3. As novas tecnologias abrem um horizonte alargado em direções que, embora imagináveis, não podemos ainda antever plenamente. Isto torna mais complexo avaliar o seu impacto, bem como os efeitos a longo prazo sobre a dignidade das pessoas e o bem comum” (MH, 4).

O Papa afirma textualmente que “a tecnologia pode curar, conectar, educar, cuidar da Casa Comum; mas também pode dividir, descartar, gerar novas injustiças. Na teoria, em si mesma, ela não é uma solução para os problemas da Humanidade, assim como não é, em si mesma um mal; todavia, na prática, não é neutra, porque tem o rosto daqueles que a concebem, financiam, regulam e utilizam. Por isso, a primeira escolha não é entre um ‘sim’ ou um ‘não’ à tecnologia, mas entre edificar Babel ou reconstruir Jerusalém; entre um poder que pretende dominar o céu ou um povo que unido, na presença de Deus, começa o trabalho de reerguer os muros da convivência fraterna” (MH, 9).

Ainda na introdução, o Papa defende que a IA pode trazer grandes benefícios, mas alerta que também pode desumanizar a sociedade, se apenas perseguir o lucro, o poder político ou o controlo tecnológico. Por isso, afirma, de forma inequívoca: “na era da inteligência artificial, em que a dignidade humana corre o risco de ser ofuscada por novas formas de desumanização, temos o dever urgente de permanecer profundamente humanos, salvaguardando com amor essa magnífica humanidade, que nos foi plenamente dada e manifestada em Cristo, e que jamais alguma máquina poderá substituir no seu esplendor. O verdadeiro progresso nasce sempre de um coração aberto ao outro, de uma inteligência disponível para ouvir, de uma vontade que procura mais o que une do que o que separa” (MH, 15).

Os antídotos contra a desumanização são sempre a cultura e a memória histórica e, porque a dignidade humana está em primeiro, nenhum algoritmo pode substituir a consciência, a liberdade moral e a responsabilidade. A pessoa não pode ser reduzida a dados, perfis ou estatísticas. Neste sentido, a encíclica faz a defesa dos mais vulneráveis, ligando a questão tecnológica aos temas sociais: migração, pobreza, exploração laboral, abuso infantil digital, fake news e exclusão social.

Não estando contra a tecnologia, o Papa reconhece que a IA pode ajudar em áreas como a medicina, a educação, a ciência e a comunicação, mas insiste que o progresso técnico precisa de limites éticos e de uma visão humana e espiritual.

Para concluir, podemos dizer que a IA está aí como dado inquestionável, sendo tempo perdido lutar contra ela. O melhor caminho é aceitá-la e usá-la ao serviço do ser humano, dentro dos limites que a ética e a dignidade humana exigem e sugerem. 


 

1 Concílio Ecuménico Vaticano II, Constituição Pastoral Gaudium et spes, 22: AAS 58, 1042.

2 Chama-se encíclica a uma comunicação escrita papal, a um documento pontifício, endereçado explicitamente à hierarquia da Igreja e aos fiéis, em geral. e até a todos os homens e mulheres de bem. 

3 Francisco, Carta Encíclica Laudato si’, 104: AAS 107 (2015), 888.

Pe. João Alberto Sousa Correia

Pe. João Alberto Sousa Correia

8 junho 2026