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Por Entre Linhas e Ideias

Que significa regressar ao lugar de onde partimos? Estamos a entrar em agosto, mês que, por tradição, é tempo de férias para grande parte dos portugueses. É também o mês em que milhares de emigrantes regressam às suas terras, reabrem casas fechadas durante o ano, reencontram famílias e voltam a percorrer ruas que conhecem desde a infância. Há neste movimento algo de profundamente humano, porque podemos partir para estudar, trabalhar ou procurar uma vida melhor, mas levamos connosco a origem. A saudade é a força que, mesmo à distância, nos chama sempre de volta a casa.

Enquanto muitos regressam em agosto às suas aldeias, outros escolhem destinos paradisíacos para descansar. Contudo, este mês traz-me também à memória um dos flagelos mais implacáveis, o fogo, que continua a atingir países como França, Espanha e Portugal. Caros leitores, este é um tema que me toca de forma especial, porque cresci numa terra rodeada de floresta e, durante o verão, a angústia e o medo obrigavam-nos a permanecer atentos. Agosto, para mim, não era propriamente um mês de férias, mas de vigilância e inquietação.

Como sou fascinado pela mitologia, trago à colação o mito de Prometeu, que roubou o fogo aos deuses para o entregar aos homens. O fogo trouxe luz, calor, conhecimento e progresso, mas também revelou o seu lado destruidor. Receber uma força assim é aceitar o dever de a usar com medida, porque ter o fogo não significa dominá-lo. É esta dualidade que encontramos nos incêndios, quando uma força útil ao ser humano perde o controlo e se transforma em destruição.

Caros leitores, nada melhor do que escutar o que alguns filósofos nos deixaram sobre esta matéria. Empédocles, filósofo pré-socrático, considerava o fogo uma das quatro raízes da natureza, juntamente com a terra, a água e o ar. Segundo ele, o Amor une estes elementos e a Discórdia separa-os, fazendo do mundo um permanente jogo de equilíbrio. Talvez os incêndios sejam uma imagem dolorosa dessa harmonia perdida, quando o fogo nos quer destruir. Como resume a expressão latina, Ignis bonus servus, malus dominus, o fogo é um bom servo, mas um mau senhor. Gaston Bachelard, filósofo e escritor francês, dedicou ao tema a obra A Psicanálise do Fogo e mostrou como ele habita a nossa imaginação de forma contraditória. Aproximamo-nos da chama porque ela conforta, mas recuamos quando percebemos o seu poder. Talvez a relação com a natureza seja também assim. Procuramo-la nas férias, admiramos a floresta e desejamos o silêncio do campo, embora muitas vezes nos esqueçamos de que esse lugar precisa de cuidado durante todo o ano.

Contudo, falar de incêndios é olhar para além das chamas. Temos de reconhecer que a prevenção falha, pois há caminhos públicos por limpar, aldeias envelhecidas, territórios esquecidos e também há gestos de imprudência capazes de transformar um dia tranquilo numa tragédia. Aldo Leopold, escritor e pensador ambiental norte-americano, escreveu que «algo está certo quando tende a preservar a integridade, a estabilidade e a beleza da comunidade biótica». Cuidar da floresta é, por isso, cuidar da nossa própria casa e do futuro que deixamos a quem vem depois.

Quero deixar uma palavra de profunda gratidão aos bombeiros, homens e mulheres que, tantas vezes, arriscam a própria vida no combate às chamas. Enfrentam o calor, o fumo, o cansaço e o perigo para proteger pessoas, casas, animais e florestas. No romance Uma Noite com o Fogo, o escritor português António Manuel Venda descreve-nos uma aldeia ameaçada pelas chamas e recorda-nos que, por detrás de cada incêndio, existem vidas, memórias e lugares que podem desaparecer. Por isso, a coragem dos bombeiros merece reconhecimento, mas exige também meios, preparação e condições dignas.

Caros leitores, agosto pode continuar a ser o mês das férias, dos regressos e das aldeias que voltam a encher-se de passos e vozes. Porém, para que a alegria do reencontro não seja interrompida pelo medo, deixo-vos esta pergunta:

- Quando regressamos às nossas origens, estamos apenas a matar saudades ou também dispostos a proteger o lugar que nos viu nascer?

Eugénio Oliveira

Eugénio Oliveira

29 julho 2026