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Do «Corpo histórico» ao «Corpo eclesial» através do «Corpo eucarístico»

Chauvet, na muito interessante obra que temos vindo a seguir e a propor aos nossos leitores, quer-nos ajudar a entrar no cerne da Oração eucarística, procurando descobrir qual é a sua lógica interna e o seu movimento. Baseia-se na Oração Eucarística II, porque «resume, perfeitamente e com a máxima brevidade, os elementos constitutivos de toda a oração eucarística». (p. 83)

Começa com um breve diálogo em que o sacerdote pede aos participantes que elevem o coração ao Senhor para lhe dar graças. E é esta a estrutura da oração eucarística: dar graças a Deus, que alcança o pleno cumprimento na doxologia final: Por Cristo… a Vós… toda a honra e toda a glória, pelos séculos dos séculos.

A primeira etapa, o prefácio, é uma ação de graças que termina com o canto de louvor: Santo, Santo, Santo é o Senhor, tomado do capítulo VI de Isaías, e que termina com «Bendito o que vem em nome do Senhor», que recorda a aclamação da multidão na entrada triunfal de Jesus em Jerusalém – o nosso Domingo de Ramos.

A dificuldade desta primeira etapa está em que o motivo da ação de graças não são as coisas positivas da nossa vida quotidiana, «mas a ação de Deus numa história de há milhares de anos. Esta ação divina é a que nos conta a Bíblia, desde a criação, passando por Abraão, Moisés, os profetas, etc., até chegar a Jesus. Tudo isto está expresso de forma muitíssimo resumida. Mas há detalhes que nos elucidam, e o mais notável deles é que sempre culmina na morte e ressurreição de Jesus, o mistério pascal. Ora, a Igreja sempre entendeu, com Paulo e os Evangelhos, que este duplo acontecimento é a chave de interpretação de toda a história bíblica. A ação de Deus no passado encontra pleno cumprimento no dom que Deus fez de si mesmo naquele que a Igreja confessa como Cristo. A partir daí, como síntese de síntese, o que é objeto de ação de graças da Igreja é o dom de Jesus no seu «Corpo histórico e glorioso». Histórico, desde a sua incarnação em Maria pelo Espírito Santo, até à sua morte na cruz; glorioso, pela sua ressurreição de entre os mortos. (P. 85)

Na segunda etapa da oração eucarística, a Igreja pede que esse passado se prolongue no presente dos fiéis, mas de outro modo. Não já histórico, naturalmente, pois o passado não pode repetir-se, mas sacramental, mais ainda, eucarístico. Por isso é que a ação de graças inicial se converte em petição: petição ao Espírito Santo, que deu corpo ao Corpo histórico, para que «santifique» o pão e o vinho e os «converta» no Corpo e Sangue de Cristo. Desta forma, o Corpo histórico e glorioso é-nos entregue como Corpo eucarístico.

A narração da «ceia de despedida» é central na oração eucarística. Acontece que, na igreja romana latina, a atenção centra-se na narração, na sua conexão com o Espírito Santo; nas igrejas de rito oriental, quer católicas quer ortodoxas, a atenção centra-se na petição ao Espírito Santo. De qualquer maneira, o que chamamos «consagração» só pode entender-se a partir da relação entre uma «narração» e uma «oração». Na narração, relata-se um passado e em terceira pessoa: o que Jesus fez na Última Ceia. A narração deve relacionar-se com a oração que, como toda a oração, se dirige a Deus no presente. Essa oração, denominada ‘epiclese’, é a invocação do Espírito Santo sobre o pão e o vinho. O papel principal do Espírito Santo é santificar o que toca, pelo que o «Corpo sacramental» de Cristo» é necessariamente um «Corpo espiritual». (Pp. 87-88)

Espiritual deve compreender-se como não material, não físico. Trata-se de uma presença sacramental cuja realidade não pode reduzir-se ao simples facto de estar aí, como uma mesa em que escrevo ou o teclado que toco. A narração termina com a frase de Jesus: «fazei isto em memória de mim». Este «fazei» dirige-se aos discípulos presentes na última Ceia, há dois mil anos. A oração que segue depois da aclamação da assembleia é: «Ao celebrar agora o memorial da morte e ressurreição do Teu Filho, nós Te oferecemos. Ou seja, há uma substituição imediata do «vós», dos discípulos do passado, pelo nós da assembleia atual. Isto significa que aquilo que foi contado no passado, a Igreja compreende-o e vive-o no presente. E não somente no presente, mas «em presença». Na presença da graça. Assim, a Anamnese, nome que se dá a esta oração, vive-se: o passado – morte, ressurreição e ascensão do Senhor – faz-se presente. É o que acontece em toda a liturgia, mas especialmente na Eucaristia que se vive sempre «no presente».

A assembleia responde: «anunciamos Senhor a vossa morte, proclamamos a vossa ressurreição, vinde, Senhor Jesus!». É este o centro da oração eucarística e inclusive o coração da missa. A eucaristia não é uma oração de adoração, mas uma oração de aclamação. Aclamação de um Deus que, em Jesus, ama cada um de nós até à morte. (Cf. P. 89)

Retomaremos em Setembro, querendo Deus.

Carlos Vaz

Carlos Vaz

29 julho 2026