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A complexidade como defesa do humano

 

 

A morte de Edgar Morin encerra uma das mais longas e fecundas trajetórias intelectuais do século XX. Filósofo, sociólogo e pensador da complexidade, Morin dedicou a vida a combater as simplificações que empobrecem a compreensão da realidade. Num tempo marcado por ideologias rígidas, especializações excessivas e certezas absolutas, insistiu na necessidade de um pensamento livre, capaz de reconhecer as interdependências, as contradições e as incertezas que caracterizam a condição humana. O seu legado ultrapassa largamente o campo académico. Morin ensinou-nos que os grandes problemas do nosso tempo não podem ser compreendidos a partir de compartimentos estanques. A economia, a política, a cultura, a tecnologia, o ambiente e a própria experiência humana formam uma teia complexa de relações. Separar artificialmente estes domínios é muitas vezes o primeiro passo para compreender mal a realidade. Por isso, a sua reflexão adquiriu uma relevância particular num mundo globalizado. Para Morin, a humanidade partilha um destino comum. As crises ambientais, os conflitos, as desigualdades e as transformações tecnológicas não conhecem fronteiras e exigem uma consciência planetária capaz de ultrapassar interesses imediatos e visões fragmentadas. Esta ideia de comunidade de destino talvez seja uma das suas contribuições mais relevantes para o século XXI. É precisamente neste ponto que se torna possível encontrar uma linha de convergência com algumas das preocupações expressas pelo atual Papa. Embora partindo de horizontes distintos – um filosófico e laico, outro espiritual e teológico – ambos convergem na crítica a uma visão redutora do ser humano e na defesa de uma responsabilidade comum perante o futuro. No texto “Contra a transumanidade”, publicado na semana passada, procurei refletir sobre os riscos de uma época fascinada pela promessa de superar os limites humanos através da tecnologia. A ambição de aperfeiçoar indefinidamente o homem, transformando-o num produto melhorável, encerra uma visão que tende a reduzir a pessoa à sua dimensão biológica ou funcional. Tanto Morin como o Papa alertam, cada um à sua maneira, para esse perigo. Ambos recordam que a condição humana não pode ser compreendida apenas através da técnica, da eficiência ou da capacidade de controlo. Morin insistiu que o ser humano é simultaneamente racional e emocional, individual e coletivo, autónomo e dependente. O Papa tem sublinhado que o progresso tecnológico, quando desligado de critérios éticos e humanistas, corre o risco de se voltar contra o próprio homem. Em ambos, encontramos a defesa de uma visão integral da pessoa, aberta à complexidade da existência e consciente dos limites inerentes à condição humana. Há ainda uma outra proximidade relevante: a crítica à fragmentação do conhecimento. Morin denunciou a incapacidade das sociedades modernas para relacionar saberes e compreender os efeitos globais das suas escolhas. Também o Papa tem apelado a uma cultura do encontro, capaz de unir ciência, ética, política e espiritualidade na procura de soluções para os desafios contemporâneos. Nenhum dos dois rejeita a modernidade ou a inovação; rejeitam, isso sim, a ilusão de que a técnica, por si só, pode responder às questões fundamentais da vida humana. Num tempo em que a inteligência artificial, a biotecnologia e a engenharia genética prometem redefinir o futuro da espécie, a obra de Morin ganha renovada atualidade. O seu pensamento recorda-nos que a verdadeira sabedoria não consiste em eliminar a incerteza, mas em aprender a habitá-la. E que o progresso só será verdadeiramente humano se preservar aquilo que nos torna humanos. Mais do que um filósofo da complexidade, Edgar Morin foi um defensor da liberdade intelectual. Recusou dogmas, desconfiou das respostas simples e ensinou gerações a pensar para além das fronteiras disciplinares e ideológicas. Numa época cada vez mais tentada por simplificações, algoritmos e polarizações, esse pode ser o seu legado mais importante.



 

Paulo Sousa

Paulo Sousa

7 junho 2026