twitter

Braga desaparecida

1. Braga Desaparecida é o título do livro de Rui Ferreira recentemente publicado. É um apelo a que se cuide do património, evitando-se a delapidação de coisas valiosas legadas pelos que nos precederam. Não apenas nos dois últimos séculos, onde a voracidade do novo lançou por terra muitas obras valiosas, mas desde muitos anos atrás. Rui Ferreira faz um apanhado de quanto se destruiu por interesse, por incúria, por ignorância.

Mas não se limita a fazer o elenco do muito que se sacrificou: aponta o dedo aos verdadeiros culpados.

 

2. No prefácio Luís Tarroso Gomes salienta a importância da cultura de conservação e restauro por oposição à reconstrução e denuncia a construção nova dissimulada atrás de fachadas depuradas como se o objetivo fosse tão só o de manter um cenário cinematográfico para filmagens de exterior.

 

3. O primeiro texto de Rui Ferreira, neste volume, é o que dá nome ao livro: «Braga Desaparecida» (páginas 15-19).

«A comunidade bracarense, escreve, deve questionar-se continuamente a respeito do seu Património. Atualizando o seu inventário de edifícios, lugares ou práticas que devem merecer ações de salvaguarda e proteção legal».

«Um vislumbre rápido pelos anais bracarenses conduz-nos, de imediato, até novembro de1905, mais propriamente ao início do processo de demolição do Castelo, talvez o mais lamentado desaparecimento no vasto cadastro da Braga Desaparecida, que se constituiu como o corolário da saga devastadora que, em pouco mais de seis décadas, destruiu quase todos os baluartes da urbe medieval».

 

4. «Se os surtos devastadores da urbe bracarense experimentaram momentos fulgentes, como sucederia durante a prelazia do arcebispo Dom Gaspar de Bragança (1758-1789) ou no período compreendido entre meados do século XIX e o advento da República, é um facto que a mais intensa fase assoladora de edifícios ou de espaços cuja valia arquitetónica ou artística justificava a sua salvaguarda sucedeu após o advento do regime democrático no nosso país».

 

5. «Devido a um crescimento demográfico e urbanístico exponencial, jamais observado nos anais bracarenses, a saga construtiva e especulativa haveria de sacrificar inúmeros edifícios, áreas verdes e vestígios arqueológicos em nome de um conceito de ‘desenvolvimento’ que abdica voluntariamente do passado, contando também com a complacência de uma autarquia ainda a adaptar-se aos mais elementares cânones da gestão urbana contemporânea».

 

6. «Se no final do século XIX e inícios da centúria seguinte foi um período marcado por um rasto de destruição de edifícios de significativa valia patrimonial e artística, encimado pelos exemplos do Castelo e do Convento dos Remédios, a verdade é que o último meio século acabou por revelar-se nefasto para o património bracarense, particularmente para os exemplares patrimoniais que marcaram a última metade do século XIX e primeiro quartel do século XX. A denominada arquitetura romântica ou o estilo ‘brasileiro’, muito recorrente nesta fase, deixou muitos fantasmas para a posteridade e certamente alguns amargos de consciência naqueles que patrocinaram a sua destruição.»


 

7. Rui Ferreira lembra o que sucedeu com a Casa dos Castelos, na Rua do Sardoal, lateral à capela de Guadalupe; o Palacete Rocha Veloso (Matos Graça), localizado no gaveto oriental do Largo da Senhora-a-Branca com a Avenida 31 de Janeiro, de que sobrou pouco mais do que a fachada principal e duas laterais; a Casa da Orge, em Maximinos, um solar em estilo barroco que remontava a 1735; a Vivenda Santa Cruz, ao lado da Perfumaria Confiança, destruída em nome da urbanização massiva; a casa que fazia gaveto entre a Rua 25 de Abril e a Avenida 31 de Janeiro; a Casa dos Moutas, marginando a atual Rua do Caires e a Casa Grande, conhecida como «casarão», localizada no Largo da Estação; a Casa do Cruzeiro, no Largo de Maximinos, que deu lugar à atual Estação dos Correios; a Casa das Moreirinhas, destruída para dar lugar ao Centro Comercial Galécia; o edifício dos Serviços Municipalizados, localizado na rua da Cruz de Pedra; a Casa das Goladas, na rua D. Pedro V, e o Palacete Domingos Afonso na rua do Carvalhal sacrificados em nome de projetos imobiliários concretizados à luz do fachadismo, conservando frontarias, mas devastando todo o interior dos edificados.

Silva Araújo

Silva Araújo

30 julho 2026