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O trabalho como forma de participar no mundo

Quando se fala de emprego, o debate público concentra-se, quase sempre, em categorias económicas: desemprego, pleno emprego, crescimento, produtividade, salários, consumo e sustentabilidade da Segurança Social. São dimensões importantes. Uma sociedade que não gera trabalho suficiente compromete a sua coesão, agrava desigualdades e fragiliza a esperança coletiva. Contudo, há um empobrecimento real quando o emprego é pensado quase apenas como o lugar onde se obtém o rendimento necessário para o sustento pessoal e familiar. Essa perspetiva, embora legítima, é insuficiente. O trabalho não é apenas o meio pelo qual se ganha a vida, é um dos lugares fundamentais a partir dos quais a pessoa adulta participa no mundo e oferece o seu contributo para uma sociedade mais habitável.

Na vida adulta, o trabalho é uma das formas mais consistentes de inscrição no espaço comum. Por ele, a pessoa transforma a realidade, entra em relação com outros, aprende a cooperar, desenvolve competências e experimenta a sua utilidade social. Trabalhar é muito mais do que produzir rendimento. É participar numa obra comum. É descobrir que a própria existência pode gerar valor, cuidado, ordem, beleza, conhecimento, serviço ou amparo para outros.

Por isso, o desemprego não pode ser lido apenas como carência financeira, embora essa seja muitas vezes a dimensão mais visível. A falta de trabalho fere a dignidade num nível mais profundo, porque priva uma mediação essencial da realização pessoal. Quem não encontra emprego não perde apenas salário; perde reconhecimento, ritmo, pertença, horizonte, autoestima e oportunidade de contribuir. Perde, em certa medida, um lugar socialmente reconhecido a partir do qual dizer: também eu participo, também eu construo, também eu sou necessário.

O mesmo se diga do emprego indigno. Nem todo o trabalho humaniza. Há formas de emprego que, mesmo remuneradas, desfiguram a pessoa: quando reduzem o trabalhador a peça descartável, quando exploram a vulnerabilidade, quando humilham, quando impedem a vida familiar ou quando submetem o indivíduo a uma precariedade permanente. Nesses casos, há salário, mas não há verdadeiro reconhecimento da dignidade. Há ocupação, mas não há autêntica participação.

Importa, por isso, defender uma compreensão mais ampla do emprego digno. Não basta criar postos de trabalho; é necessário criar condições para que o trabalho seja lugar de contribuição social, de crescimento humano e de integração efetiva no mundo comum. O valor do trabalho não reside apenas no que permite receber, mas também no que permite oferecer. Uma sociedade decente não é só a que reduz estatísticas de desemprego; é a que reconhece em cada trabalhador uma pessoa chamada a participar na construção do bem comum.

Esta reflexão permite ainda olhar de modo novo para a passagem à reforma. Com demasiada frequência, a reforma é entendida como saída da vida útil. Mas, se o trabalho é uma forma de participação no mundo, então o fim da vida profissional não pode significar a cessação dessa participação. Deve antes ser pensado como transição para outro modo de presença social: através do voluntariado, da participação cívica, da transmissão de saberes e da colaboração em causas e instituições sem fins lucrativos.

Uma sociedade verdadeiramente humana não descarta aqueles que saem do mercado de trabalho, como não resigna os desempregados à invisibilidade. O trabalho, quando é digno, não serve apenas para garantir sustento. Dá forma à presença da pessoa no mundo. E é por isso que a sua ausência, ou a sua degradação, constitui uma ferida profunda: porque atinge não só a economia da vida, mas a própria possibilidade de viver com dignidade e sentido.

Luís M. Figueiredo Rodrigues

Luís M. Figueiredo Rodrigues

6 junho 2026