Nunca existiram tantas exigências administrativas, tantos desafios de sustentabilidade e tantas expectativas colocadas sobre clubes, associações e federações desportivas. Ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil encontrar dirigentes voluntários dispostos a garantir o funcionamento das organizações que constituem a base do sistema desportivo nacional.
O modelo dos clubes continua assente em múltiplos órgãos sociais, procedimentos administrativos complexos e numa legislação que foi sendo sucessivamente acrescentada e remendada ao longo do tempo. O resultado é um sistema que, em muitos casos, se tornou excessivamente focado na sua própria gestão e burocracia, afastando-se daquilo que deveria ser a sua missão principal: criar condições para que mais pessoas pratiquem desporto de forma aberta, com qualidade, regularidade e contribuindo para o desenvolvimento social.
Esta crescente burocratização obriga a repensar profundamente a forma como o associativismo desportivo funciona, sobretudo na sua articulação com o sistema educativo e com todos os agentes do desenvolvimento desportivo.
Estruturas administrativas e processos desajustados à dimensão e à realidade nacional, associados a órgãos sociais cuja utilidade prática é cada vez mais reduzida, apenas agravam o problema. A energia que deveria ser aplicada no desenvolvimento desportivo é frequentemente consumida por tarefas administrativas, legais e financeiras. Também as federações desportivas devem olhar para a sua própria organização. Não basta exigir mais informação aos clubes, mais procedimentos e mais sacrifício material. É necessário simplificar, apoiar, integrar serviços e criar valor para os associados. O futuro passará inevitavelmente por modelos mais colaborativos, serviços partilhados, soluções tecnológicas integradas e uma maior profissionalização das estruturas.
Mas a reflexão não pode ficar apenas ao nível das organizações. Deve abranger todo o sistema desportivo português. Ao longo dos anos foram sendo criadas estruturas, programas e competências que, em alguns casos, se sobrepõem mais do que se complementam. O país necessita de uma verdadeira articulação — na minha opinião, musculada — entre os diferentes subsistemas do desporto, nomeadamente, e de forma decisiva, entre o Desporto Escolar e o Desporto Federado.
Nos escalões de formação importa clarificar responsabilidades e construir percursos coerentes para os jovens praticantes. A Escola deve assumir plenamente a formação desportiva de base até determinadas idades, enquanto o movimento federado deve assumir a regulamentação das modalidades, a organização competitiva formal e a certificação de treinadores, árbitros e outros agentes desportivos em todos os contextos, para isso lhe é conferido utilidade pública desportiva. Não se trata de retirar competências a ninguém, mas de eliminar duplicações e utilizar melhor os recursos disponíveis.
Um país com recursos limitados não pode continuar a financiar estruturas paralelas que desenvolvem funções semelhantes. A complementaridade deve substituir a sobreposição, a coordenação deve prevalecer sobre a fragmentação e a eficiência deve superar a manutenção de modelos que existem apenas porque sempre existiram.
Talvez tenha chegado o momento de iniciar uma revisão profunda da Lei de Bases da Atividade Física e do Desporto. A atual lei já era “velha” quando foi publicada em 2007. Quase duas décadas depois, enfrenta uma realidade completamente diferente daquela para a qual foi concebida. O mundo mudou, os praticantes mudaram, os modelos de participação evoluíram e a tecnologia transformou profundamente a forma como as organizações funcionam.
O custo de manter estruturas e modelos desajustados à realidade atual será cada vez maior para o sistema desportivo e para o país. O futuro poderá não depender apenas de mais financiamento, mas sobretudo da capacidade de simplificar, cooperar, eliminar redundâncias e colocar cada organização a cumprir a sua missão de forma complementar. Mudar deixou de ser uma opção. É uma condição para sobreviver. Caso contrário, continuaremos a suportar um modelo cada vez mais pesado, dispendioso e pouco útil para responder aos desafios do presente e do futuro.